José Maria Neves traça balanço "audaz, auspicioso e cintilante"
José Maria Neves fez, na passada quinta-feira, um balanço globalmente positivo dos cinco anos como Presidente da República, classificando o mandato que agora termina como "audaz, auspicioso e cintilante". Em declarações prestadas aos jornalistas, o Chefe de Estado sublinhou a estabilidade política e institucional alcançada no país, a intensificação do diálogo com a diáspora e o reforço da presença de Cabo Verde em fóruns internacionais. Segundo José Maria Neves, o mandato permitiu "abrir novos caminhos através de um diálogo intenso entre todas as forças políticas, entre o Estado e os municípios, entre o Estado e a sociedade, entre o Estado e os cidadãos", o que possibilitou "garantir a estabilidade política e institucional" e "a governabilidade do país". O Presidente recordou que, ao longo dos cinco anos, houve duas eleições autárquicas, com "várias alternâncias políticas, num ambiente de serenidade e tranquilidade", e destacou o diálogo mantido com todos os presidentes de câmara e com os dois governos que geriu o país neste período, incluindo o executivo agora liderado por Francisco de Carvalho. Questionado sobre a relação com o anterior Governo, com quem viveu uma situação de coabitação, o Presidente considerou-a "boa", admitindo que "sempre há momentos de tensão, às vezes até de alguma hostilidade", mas garantindo ter zelado para que as relações fossem "serenas, produtivas e contribuintes" para o funcionamento das instituições e para o desenvolvimento do país. "Ouvidor-geral" das ilhas e da diáspora José Maria Neves reivindicou o papel de "ouvidor-geral da República", tendo visitado todas as ilhas e os principais países de acolhimento de emigrantes cabo-verdianos através das iniciativas "presidência da ilha" e "presidência da diáspora". Entre os países visitados no âmbito da diáspora, o Presidente citou Estados Unidos, São Tomé e Príncipe, Portugal, França, Angola, Luxemburgo, Espanha, Guiné-Bissau e Países Baixos, sublinhando a importância de o Chefe de Estado ser "o traço de união entre todos os cabo-verdianos, independentemente do país onde estejam". O Presidente destacou ainda as chamadas "Semanas da República", com incidência na chamada geração Z, considerando fundamental "descodificar" a linguagem dos jovens e criar canais que garantam a sua maior participação no processo de desenvolvimento do país. O balanço não deixou de fora os momentos mais difíceis do mandato. José Maria Neves recordou o acidente de viação na Serra Malagueta, no qual morreram vários soldados e voluntários que combatiam um incêndio, e a tempestade Erin, que atingiu a Ilha de São Vicente e, mais recentemente, o acidente rodoviário no Fogo. Segundo o Presidente, procurou estar "sempre presente para levar o conforto, para amparar as pessoas num momento difícil" e para mobilizar autarquias, Governo, empresas e sociedade civil na resposta a estas situações. 50 anos da independência Entre os "momentos de grandeza" do mandato, o Presidente destacou a comemoração dos 50 anos da independência nacional, que incluiu a libertação de presos políticos, a tomada de posse do governo de transição e a proclamação da República, com a presença de vários chefes de Estado. No plano diplomático, José Maria Neves elencou visitas de Estado recebidas de vários chefes de Estado, incluindo, pela primeira vez, os presidentes da Alemanha, da Roménia, da Sérvia, do Senegal e do Gana, além de sucessivas visitas dos presidentes do Brasil, de Angola e de Portugal, e da recente visita do presidente de São Tomé e Príncipe. Destacou ainda a visita do director-geral da UNESCO a Cabo Verde, a primeira em 23 anos. O Chefe de Estado enumerou também distinções internacionais obtidas no seu mandato: a designação como Champion da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural de África, Patrono da Aliança da Década do Oceano e da História Geral de África pela UNESCO, e a eleição para o Conselho de Administração do Fundo Africano para o Património Mundial. Na área ambiental, referiu a organização de cinco conferências sobre a Década do Oceano, voltadas para a protecção dos mares, a literacia oceânica e a gestão sustentável dos recursos marinhos, com a participação de organismos como a UNESCO. Sem arrependimentos Questionado sobre o que faria de forma diferente, José Maria Neves foi peremptório: "Não vejo nenhum momento negativo que eu não repetiria." O Presidente admitiu que possa ter havido falhas ou erros, mas defendeu que só "quem não trabalha, só quem não faz nada" é que está livre de cometer enganos. Confrontado com a polémica em torno da compensação atribuída à Primeira-Dama, um dos temas que mais críticas gerou ao longo do mandato, José Maria Neves reconheceu tratar-se de "um momento polémico", mas insistiu que a questão foi tratada "de boa fé" e "de forma absolutamente transparente". Segundo o Presidente, todas as contas da Presidência foram integradas no Tesouro e no sistema de gestão orçamental do Estado, os recursos foram orçamentados com autorização do Governo e os descontos para as finanças e para a previdência social foram devidamente autorizados. Pressões "todos os dias" e limites constitucionais Questionado sobre eventuais pressões ou interferências políticas no exercício das funções, José Maria Neves admitiu enfrentar "pressões todos os dias", distinguindo entre pressões normais e pressões indevidas, e defendendo que o Presidente deve agir "com autonomia, imparcialidade" e uma perspectiva de longo prazo, em defesa das instituições e do Estado de Direito. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1294 de 16 de Setembro de 2026.
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