Guerras, soberania e democracia: Lula quer fazer contraponto a Trump em abertura de assembleia da ONU
Lula discursa na ONU em 23 de setembro de 2025; presidente brasileiros faz o primero discurso da Assembleia Geral das Nações Unidas Shannon Stapleton/Reuters O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre na manhã desta terça-feira (22) o debate de líderes da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos. O petista discursa antes do presidente Donald Trump e, por isso, deve apresentar em seu discurso temas com uma visão de contraponto à do americano. Lula chegou aos Estados Unidos no domingo (20) e concentrou a agenda de segunda-feira (21) na preparação final do discurso e em encontros com aliados internacionais. Ao longo desta segunda, o petista fez os últimos ajustes no texto ao lado da equipe de assessoria internacional do governo. Prefeito de NY e Lula se encontram nos EUA e trocam camisas de time de futebol Segundo auxiliares do presidente brasileiro, a ideia é mostrar Lula em contraposição a Trump no discurso, uma espécie de "anti-Trump" em assuntos como democracia, comércio e paz mundial. Internamente, a campanha de Lula quer usar esse discurso em um importante evento internacional para colocar o presidente brasileiro como um "estadista" e mostrar a diferença entre ele e Trump, apoiador de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro. Membros da campanha petista acreditam que isso possa ter apelo com o eleitor indeciso, não alinhado. Um dos eixos do discurso de Lula deve ser sobre a erosão do multilateralismo. Em sua fala, Lula deve defender como o enfraquecimento da cooperação entre países provoca impactos na vida real das pessoas em diversas áreas: segurança/paz, emergência climática, saúde, comércio e soberania nacional. Também é esperado que o presidente faça críticas às Nações Unidas e volte a defender uma reforma na Conselho de Segurança. O discurso também deve ser crítico aos conflitos globais e ao que o presidente tem dito publicamente sobre ameaça à soberania de países da América Latina, como o que ocorreu no início do ano na Venezuela com a captura de Nicolas Maduro. Prisão de Maduro também motivou movimentações nos mercados Adam Gray/REUTERS Recados sobre tentativa de interferência nas eleições A expectativa é que o presidente dedique parte do discurso a fazer uma defesa da soberania brasileira e a criticar o que avalia serem tentativas externas de interferência no processo eleitoral do Brasil. O presidente não deve mencionar diretamente os Estados Unidos, nem o nome do presidente Donald Trump mas – segundo interlocutores – haverá recados direcionados não apenas aos EUA, como também a outros países que, para Lula, tentam influenciar nas eleições do Brasil, como Argentina e Israel. Para a equipe de Lula, os EUA representam maior ameaça à reeleição do petista, sobretudo, por serem o país das big techs, as gigantes de tecnologia, e pelo protagonismo estadunidense na geopolítica. Lula e Trump se encontraram pela última vez na Casa Branca em maio Ricardo Stuckert / PR O processo eleitoral do Brasil não será tema central do discurso do presidente Lula. No entanto, o governo entende que o tema se tornou relevante porque, na avaliação da diplomacia nacional, "a democracia e o multilateralismo estão sob ataque". Outros temas A expectativa é que Lula reforce linhas tradicionais da política externa brasileira, como: defesa do multilateralismo; defesa de negociações de paz; defesa da não interferência nos assuntos internos dos países; respeito ao direito internacional humanitário; combate ao crime organizado; meio ambiente; inteligência artificial. A ideia, segundo diplomatas que acompanham o presidente, é que ele apresente iniciativas brasileiras e a visão do Brasil sobre o cenário internacional. O combate ao crime organizado e a cooperação internacional também devem entrar na pauta de Lula na ONU. A orientação é que o presidente destaque as ações adotadas pelo Brasil e a importância da cooperação entre os países, sem direcionar o discurso especificamente a Trump, ao Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a episódios recentes envolvendo o tema. Governo brasileiro nega alegações de Trump de que Brasil falhou no confronto ao PCC e Comando Vermelho Reforma do conselho e eleição na ONU Um dos temas que Lula vem abordando ao longo de seu mandato em relação à ONU é a defesa da reforma do Conselho de Segurança, que, para o presidente brasileiro, não tem a mesma capacidade de evitar conflitos entre países nem de mediar soluções pacíficas quando algum de seus membros se envolve em guerras. 🔎O conselho tem cinco membros permanentes (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França) e dez não-permanentes, que se revezam e têm mandato de dois anos. Lula tem frisado que EUA e Rússia, por exemplo, estão direta ou indiretamente envolvidos em guerras, o que coloca em xeque a capacidade do conselho de evitar conflitos. Isso porque, no modelo atual, os cinco membros permanentes têm poder de veto, ou seja, qualquer decisão do conselho só vai adiante se for aprovada por esses países. Lula tem defendido, nesse cenário, que o conselho seja ampliado e possa contar com mais países na condição de membros permanentes, a exemplo do Japão, da Alemanha e da África do Sul, além do Brasil. A sucessão na ONU também é um tema relevante. Neste ano, a ONU definirá o sucessor de Antônio Guterres no cargo de secretário-geral da organização. Seguindo o critério de rotatividade, o Brasil defende a candidatura de uma mulher latino-americana e apoiava o nome da ex-presidente do Chile Michelle Bachelet para a função. Ela, no entanto, retirou sua candidatura após perder apoio em seu próprio país. A escolha será feita pela Assembleia Geral da ONU, a partir de uma indicação dos membros do Conselho de Segurança.
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