Professores e pais/encarregados de educação com expectativas distintas do projecto-piloto de alargamento do horário escolar
<p>A professora do 2.º ciclo na escola de São Francisco, Simónia Monteiro, em entrevista à Inforpress, considerou a iniciativa “muito boa” e “muito necessária”, tendo em conta a realidade socioeconómica de muitas famílias cabo-verdianas.</p><p>Segundo a docente, existem alunos que, após o período de aulas, ficam sem acompanhamento adequado, sobretudo em famílias monoparentais, com crianças que vivem com os avós ou cujas mães trabalham durante longos períodos.</p><p>“Se a experiência-piloto for muito bem executada, trará grandes benefícios para o sistema educativo cabo-verdiano”, afirmou, apontando como possíveis resultados a redução da delinquência juvenil, do abandono escolar e a melhoria do aproveitamento académico.</p><p>Simónia Monteiro entende que o período adicional não deve ser encarado como uma simples extensão das aulas tradicionais, mas como uma oportunidade para diversificar as actividades e apoiar alunos com maiores dificuldades.</p><p>Como exemplo, referiu actividades de música, artes, empreendedorismo e apoio ao estudo, além de explicações em disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática.</p><p>Quanto à possibilidade de sobrecarga dos professores, a docente defendeu que a implementação deve respeitar a carga horária legalmente estabelecida e ser acompanhada da contratação de mais profissionais, quando necessário.</p><p>“Acredito seriamente que o ministério vai trabalhar na aquisição de mais professores para o sistema e não vai sobrecarregar os professores”, disse, acrescentando que qualquer trabalho adicional deverá ser devidamente compensado, de acordo com os trâmites legais.</p><p>A professora chamou atenção para os desafios relacionados com as infra-estruturas escolares, considerando que nem todas as escolas possuem, actualmente, condições para acolher os alunos durante mais horas.</p><p>Na sua perspectiva, as soluções deverão ser adaptadas à realidade de cada estabelecimento de ensino, uma vez que “nem todas as escolas têm condições de acolher este projecto-piloto”.</p><p>A docente defendeu ainda que os alunos que residem longe das escolas deverão beneficiar de condições para permanecer no estabelecimento durante o período de almoço, evitando deslocações para casa e posterior regresso às aulas.</p><p>Por seu turno, o professor da área do Direito no Liceu Constantino Semedo, Denilson Monteiro, considerou igualmente a iniciativa positiva, mas condicionou o seu sucesso à criação das condições necessárias nas escolas.</p><p>Para o docente, o prolongamento do horário poderá contribuir para retirar crianças e jovens da rua, sobretudo nos casos em que os pais trabalham durante o dia e não dispõem de uma rede de apoio familiar.</p><p>“A iniciativa do Governo vai ao encontro dessa perspectiva de tirar as crianças da rua, para que possam ficar na escola, continuar os seus estudos e reforçar a sua formação”, afirmou.</p><p>Denilson Monteiro alertou, contudo, para a necessidade de reforçar o número de professores e o pessoal de apoio, lembrando que existem escolas que já enfrentam carências de docentes, inclusive devido à aposentação de profissionais.</p><p>Na sua opinião, o projecto não deve resultar numa sobrecarga para os professores que já cumprem uma carga horária definida, sobretudo aqueles que beneficiam de redução de horário em função dos anos de serviço.</p><p>“Devemos assegurar todas essas condições para que possamos beneficiar as crianças e as famílias sem prejudicar, por outro lado, os professores que já levam muitos anos a trabalhar no sistema educativo”, salientou.</p><p>O professor mostrou-se também favorável à possibilidade de compensação dos docentes envolvidos e defendeu um diálogo entre as partes para encontrar soluções consensuais.</p><p>“Devemos sentar todos à mesa para que possamos, de uma forma ou outra, alinhar todas as questões possíveis”, defendeu, considerando que o projecto poderá começar em algumas escolas e ser progressivamente alargado a outros estabelecimentos do país.</p><p>Entre os pais e encarregados de educação, as opiniões também divergem. Um pai de dois alunos, que pediu para não ser identificado, considera que a medida precisa de ser alvo de um debate “mais alargado e aprofundado”, sobretudo com a participação dos pais e encarregados de educação antes da sua implementação.</p><p>O encarregado de educação disse não concordar com a permanência obrigatória dos seus filhos na escola para além das 13:00, explicando que ambos estudam no período da manhã, têm actividades durante a tarde e que o horário entre as 12:30 e as 13:00 lhe permite ir buscá-los à escola devido às suas responsabilidades profissionais.</p><p>Na sua perspectiva, a medida deveria ser opcional, uma vez que nem todas as crianças necessitam de acompanhamento escolar depois do período normal de aulas.</p><p>Defendeu ainda que algumas crianças precisam de tempo e de um espaço adequado para estudar em casa e preparar-se para as aulas do dia seguinte, enquanto outras frequentam aulas de reforço, actividades desportivas e recreativas fora da escola.</p><p>“Se há crianças com necessidades de acompanhamento especial para além do horário escolar, então que se implementem medidas direccionadas a essas crianças e não se generalize para todas”, argumentou.</p><p>Já Venícia Furtado, mãe de uma criança de seis anos, considera a iniciativa positiva, sobretudo para famílias que não dispõem de uma rede de apoio.</p><p>Segundo a encarregada de educação, nem todos os pais têm familiares, vizinhos ou outras pessoas de confiança que possam ficar com os filhos após a saída da escola, enquanto cumprem as suas jornadas de trabalho.</p><p>Por isso, acredita que a experiência-piloto poderá trazer resultados positivos, desde que seja devidamente estruturada e tenha em conta as diferentes realidades das famílias e dos alunos.</p><p>O projecto-piloto deverá, assim, permitir ao Governo avaliar as condições necessárias, os impactos pedagógicos e sociais e a receptividade das comunidades educativas antes de uma eventual expansão da medida a nível nacional.</p>
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