Pensada para carros, testada pelo clima: como o planejamento de Brasília afeta a mobilidade em tempos de aquecimento global
Como planejamento de Brasília impacta a mobilidade urbana em meio à crise climática Ao longo dos anos, eventos climáticos – cada vez mais extremos – se tornaram capazes de paralisar grandes centros urbanos. O direito de ir e vir é um desafio urbano que mobiliza especialistas e altera as rotinas de milhares de pessoas em todo o mundo. No Distrito Federal, não é diferente. Na primeira em uma série de três reportagens, o g1 mostra, com o auxílio de especialistas, como a construção e o crescimento da capital impactam na mobilidade urbana e são capazes de realçar episódios extremos do clima. ➡️Nos próximos dias, o g1 mostra também como esses impactos já são sentidos atualmente – e o que é preciso fazer para reverter esse quadro. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 DF no WhatsApp. Engarrafamento no Eixão Sul, em Brasília TV Globo/Reprodução Brasília, símbolo modernista Monumentalidade, concreto, formas geométricas e curvas. Brasília foi fundada na década de 1960, no meio do Planalto Central, e logo se tornou um dos mais expressivos símbolos da arquitetura moderna em todo mundo. O modernismo surgiu, entre as décadas de 1930 e 1940, da necessidade de dar conforto às populações que viviam em cidades inchadas pela Revolução Industrial. Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) do DF, Ricardo Meira, o plano original do arquiteto Lúcio Costa valorizava a "caminhabilidade". "Ele pensou na lógica em que as pessoas, a uma distância máxima de 500 m da sua casa, tivessem tudo o que precisassem, inclusive lazer, educação, igreja, comércio." Longos trechos viários: as vias urbanas do DF na década de 1960 e 1970 Frota do DF ganhou 142,8 mil veículos em 2025 A ideia vale para o Plano Piloto, mas não se expandiu com o crescimento populacional e o surgimento das regiões administrativas, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) e doutora em arquitetura Liza Andrade. "As cidades satélites não foram completamente urbanizadas, com desenvolvimento econômico suficiente, o que cria ainda dependência do Plano Piloto. Brasília é muito espalhada. Isso tudo é difícil para a mobilidade urbana", afirma. A especialista destaca o conceito de monofuncionalidade, também ligada ao modernismo – ou seja, a ideia de criar setores específicos para moradia, trabalho, lazer. A partir daí, nasce também a necessidade de que a grande maioria da população se desloque com mais frequência para cumprir as tarefas diárias. Onde se mora, quase não se trabalha e quase não se diverte. "Brasília foi planejada para abrigar uma população estimada de 500 mil habitantes. O DF, hoje, tem mais de 3 milhões. Isso gera um imenso fluxo diário pendular entre o Plano Piloto e as cidades satélites", completa o presidente do CAU-DF. Cidade-parque, cercada de cinza Imagem aérea de Brasília mostra "tesourinhas" durante a construção da Capital Federal Reprodução Brasília é conhecida como cidade-parque -- parte do planejamento de Lúcio Costa para a construção da capital preservado até os dias atuais. Segundo dados da Novacap, 65 mil das cerca de 79 mil árvores plantadas pela companhia urbanizadora entre 2024 e 2025 estão no centro da capital. O mesmo não acontece em regiões periféricas: apenas 14 mil plantios foram em Samambaia, por exemplo, ainda de acordo com a Novacap. 'Racismo ambiental': foto comparando quantidade de árvores em duas regiões de Brasília viraliza nas redes sociaisA justificativa para a diferença, segundo a companhia, é que o Plano Piloto tem áreas para arborização que foram planejadas e são preservadas. Já outras localidades tiveram "origem sem o devido planejamento ou critérios de preservação". A relação entre a presença de áreas verdes e a mobilidade urbana pode não parecer óbvia, mas existe. Segundo o professor de engenharia do UniCeub Rideci Farias, o uso intenso do concreto somado ao asfalto dos grandes eixos viários necessários para interligar as cidades contribui com o escoamento superficial: quando a água (das chuvas, por exemplo) é maior que a capacidade de infiltração do solo. A consequência: inundações que impactam diretamente na mobilidade urbana – desde a oferta mais lenta de veículos, causado pelo trânsito, até falhas no fornecimento de energia que impactam o serviço do metrô, por exemplo. "O Distrito Federal foi desenvolvido pensando muito na questão de mobilidade rodoviária. Apesar de algumas áreas terem certo planejamento, o DF não foi dimensionado para eventos extremos e mais frequentes e a gente tem uma fragilização do sistema", afirma o especialista. Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.
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