Guerra no Irã pode reduzir emissões de gases de efeito estufa em 2026, mas efeito ainda é incerto; entenda

g1.globo.com · tech

Ria Puskas / Unsplash / Divulgação A guerra no Irã provocou uma mudança inesperada nas projeções para as emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) em 2026. Depois de começar o ano prevendo crescimento, estimativas atualizadas da Agência Internacional de Energia (IEA) passaram a indicar uma pequena queda nas emissões associadas ao uso de petróleo, gás e carvão. A redução projetada é de cerca de 0,5% em relação a 2025, segundo uma análise do Carbon Brief, site britânico especializado em mudanças climáticas, baseada nas previsões da agência. Em volume, isso representa aproximadamente 190 milhões de toneladas de CO₂ a menos. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia O número é relevante porque quedas nas emissões globais de combustíveis fósseis são raras. Mas também exige cautela: o recuo corresponde a uma fração pequena das quase 40 bilhões de toneladas de CO₂ emitidas anualmente pela queima de carvão, petróleo e gás. Além disso, a estimativa ainda é uma projeção para o conjunto de 2026, e pode mudar de acordo com a duração do conflito, os preços da energia e a recuperação do fornecimento de combustíveis nos próximos meses. Veja o que os dados indicam até agora: 📉 As emissões fósseis podem terminar 2026 cerca de 0,5% abaixo de 2025. 🛢️ O petróleo concentra boa parte da mudança: a previsão da IEA passou de crescimento da demanda no início do ano para uma redução de cerca de 2,5 milhões de barris por dia em setembro. 🔥 O gás também perdeu espaço nas projeções, após restrições de oferta e preços mais altos. 🪨 O carvão segue na direção oposta: o consumo global deve crescer e atingir um novo recorde neste ano. 🌡️ Uma queda anual nas emissões, contudo, não significa queda do CO₂ na atmosfera. O mundo continuaria emitindo dezenas de bilhões de toneladas e aumentando a concentração do gás. Os dados da Agência Internacional de Energia (IEA), checados pelo g1, mostram como a projeção mudou ao longo do ano. O movimento foi apontado primeiro pelo Carbon Brief e depois destacado em uma análise do jornal “The Washington Post”. Projeção global de emissões Arte/g1 LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo Em janeiro, a projeção indicava que as emissões associadas aos combustíveis fósseis ficariam 281 milhões de toneladas acima das de 2025. A revisão da demanda por petróleo virou esse resultado para 260 milhões de toneladas abaixo. Depois, a nova previsão para o gás aprofundou o recuo para 454 milhões de toneladas abaixo de 2025. O aumento projetado do carvão compensou parte dessa redução. Com isso, a estimativa mais recente aponta para um saldo de aproximadamente 191 milhões de toneladas de CO₂ a menos que em 2025. A diferença entre a expectativa feita em janeiro e a projeção atual chega, portanto, a cerca de 472 milhões de toneladas de CO₂. ⚠️ Isso, contudo, também não significa que 472 milhões de toneladas deixaram efetivamente de ser emitidas. O número mostra quanto a previsão para o ano mudou desde janeiro. Essa distinção é importante porque parte da mudança resulta de previsões feitas antes da guerra que não se confirmaram, e não apenas de uma redução absoluta do consumo já registrada. A queda na demanda global por petróleo ajudou a reduzir as projeções de emissões para 2026, mas o efeito pode ser pequeno e temporário. REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração Queda pequena, trajetória de alta As emissões de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis e da indústria vem aumentando desde a Revolução Industrial e passaram de cerca de 22,5 bilhões de toneladas em 1992 para 38,6 bilhões em 2024. Nesse intervalo, houve poucos recuos relevantes. Depois da crise financeira internacional, as emissões caíram em 2009, mas voltaram a crescer rapidamente no ano seguinte. Em 2020, a pandemia de Covid-19 provocou uma redução muito maior, seguida também por uma recuperação. Por isso, segundo especialistas, uma eventual queda em 2026 não permite concluir, por enquanto, que as emissões globais entraram em uma trajetória permanente de redução. Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, diz que o principal cuidado é não confundir uma mudança conjuntural no mercado de energia com uma transformação estrutural do sistema energético. “Pode até ser que as emissões fiquem meio estáveis, ou tenha uma pequena queda nesse ano por causa disso. Mas não é isso que vai resolver a mudança climática", afirma. Para Angelo, o aspecto mais relevante da crise pode aparecer menos no resultado de um único ano e mais nas decisões que governos, empresas e consumidores tomarem diante dos preços altos e das dificuldades de abastecimento. “Mais do que ficar olhando para a tonelada de carbono que reduziu aqui e ali, você precisa olhar para o que a guerra está fazendo com os mercados de energia mundo afora.” O choque provocado pelo conflito atingiu principalmente o petróleo e o gás. Com interrupções no fornecimento e preços mais altos, a previsão da IEA para a demanda mundial de petróleo foi sendo reduzida ao longo de 2026. Emissões em trajetória de aumento Arte/g1 LEIA TAMBÉM: Espécie achada em esterco de gado pode explicar a origem do 'cogumelo mágico' mais cultivado do mundo Cientistas encontram fóssil de tiranossauro gigante que pode ser parente antigo do T. rex Estudos sugerem que o Sol 'fugiu' do centro da Via Láctea junto com estrelas gêmeas Em janeiro, a agência ainda projetava aumento de aproximadamente 930 mil barris por dia. Em setembro, a estimativa já apontava para uma demanda 2,5 milhões de barris por dia menor que a de 2025. No gás, o movimento foi semelhante. A previsão de crescimento feita no início do ano deu lugar a uma expectativa de queda no consumo. O carvão, no entanto, mostra o limite dessa mudança. A IEA prevê aumento de 1,2% no consumo mundial em 2026, para um recorde de 8,94 bilhões de toneladas, já que parte dos países passou a recorrer mais ao combustível diante das dificuldades envolvendo petróleo e gás. Ou seja, a guerra não provocou uma redução uniforme dos combustíveis fósseis. Ela mudou a combinação entre eles. Angelo afirma que preços persistentemente altos de petróleo e gás podem acelerar decisões que já vinham ocorrendo, como investimentos em eletrificação e fontes renováveis. Mas ressalta que ainda é cedo para saber se essas mudanças serão permanentes. “Pode causar uma mudança permanente nos mercados de energia, que pode — e o verbo ‘pode’ é importante — levar a um desmame mais rápido dos combustíveis fósseis.” E há sinais nos dois sentidos. A procura por tecnologias de energia limpa continua avançando em grandes mercados, ao mesmo tempo que países aumentam o uso de carvão e produtores de petróleo e gás mantêm planos de expansão. A própria IEA prevê uma recuperação da demanda por petróleo em 2027. Isso significa que parte da redução observada neste ano pode desaparecer quando as condições de oferta melhorarem. A guerra no Irã provocou uma mudança inesperada nas projeções para as emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) em 2026. Reuters O histórico reforça essa cautela. Na pandemia, as emissões fósseis globais caíram cerca de 5% em 2020, um recuo muito maior que o projetado agora. No ano seguinte, voltaram a crescer. Depois da crise financeira de 2008, ocorreu movimento semelhante. Há ainda outra diferença entre emitir menos e reduzir a quantidade de CO₂ na atmosfera. Mesmo que a projeção de queda de 0,5% se confirme, o planeta continuará adicionando bilhões de toneladas de CO₂ à atmosfera. O gás se acumula durante muito tempo, por isso uma redução pequena apenas diminui ligeiramente a velocidade desse aumento. Medições mais recentes mostram essa diferença. A concentração média global de CO₂ chegou a 423,9 partes por milhão em 2024, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), cerca de 52% acima do nível pré-industrial. Em 2026, as medições feitas em Mauna Loa, no Havaí, uma das principais estações de referência do mundo para o monitoramento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, voltaram a superar 430 partes por milhão durante o pico anual. LEIA TAMBÉM: Super El Niño pode estar entre os mais intensos já registrados; veja o que esperar 'Ao me ver, chore': A história por trás das 'pedras da fome' da Europa ANTES E DEPOIS: imagens de satélite mostram efeitos da seca extrema na Europa Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'

Read full article →