Chuva dos últimos dias ainda não é suficiente para salvar ano agrícola em Santo Antão

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Em Santo Antão, as ribeiras e os furos continuam por encher. No final da semana passada, choveu de forma fraca a moderada, mas por curtos períodos e de forma muito desigual de zona para zona. Produtores descrevem prejuízos crescentes e defendem uma resposta antecipada e coordenada para uma realidade instalada: chuva imprevisível e insuficiente. Em Ribeira das Patas, o presidente da Associação Comunitária local apela a um planeamento antecipado para proteger as famílias dos efeitos da falta de chuva sistémica. Arlindo Delgado entende que as autoridades devem adoptar um plano anual, com medidas preparadas e executadas antecipadamente, assumindo a seca como padrão normal. “Já é altura de se ter um plano estratégico anual para a questão da seca. Em Cabo Verde, já reparámos que só chove com tempestade, chuva de tempestade. Então, é necessário fazer um plano anual para que, nesta altura de Setembro, a Câmara Municipal e o próprio Governo tenham um plano de mitigação em execução”, recomenda. “Esta não é altura para fazer levantamentos. As medidas emergenciais já deveriam estar a ser executadas. A chuva em Cabo Verde tem de cair até finais de Agosto. A partir daí, já tens problemas graves nas comunidades. Era para se estar com um plano de mitigação em execução e não à espera para fazer o levantamento da situação”, reforça. A pouca chuva, no acumulado anual, comprometeu a agricultura de sequeiro e levou a uma redução das culturas de regadio. “Temos uma população que já está a sentir os efeitos de uma fase menos boa economicamente. Temos falta de pasto, dificuldades enormes das famílias, sobretudo neste início de ano lectivo. Sem leite, não há produção de queijo, logo, a economia está estagnada. Não houve muita manga este ano, nem laranja. A população está desanimada”, desabafa. Para o presidente da Associação Comunitária de Ribeira das Patas, a resposta à seca também deve incluir uma gestão estratégica da água. A situação é idêntica em Casa de Meio, onde a falta de chuva e as temperaturas elevadas estão a agravar as dificuldades das famílias. Tudo corre mal este ano, desde a germinação das sementes até à maturação das culturas, passando pelo aparecimento de pragas. A cenoura é uma das culturas mais afectadas, com agricultores a repetirem várias vezes a sementeira, sem resultados. “Devido ao calor, que está acima da média, há sementes que, mesmo sendo regadas, não germinam. E, se germinam, acabam por morrer antes de nascer ou logo após o nascimento. Portanto, temos o problema da germinação e da maturação, devido ao sol quente que incide nas frutas. Procuramos alternativas, mas acabamos por perder grandes percentagens de colheitas, com prejuízos enormes, também devido às pragas”, desabafa. Os sucessivos prejuízos diminuem a motivação dos agricultores e nem as práticas de adaptação e mitigação, como a cobertura dos solos e a instalação de cortinas de vento, têm sido suficientes. “Estamos a tentar que nos aumentem a quantidade de água disponível, mesmo que não seja pelos furos, mas tem de se encontrar uma forma para ajudar os agricultores a aumentarem a quantidade de água disponível, além do acompanhamento no terreno das causas e consequências das mudanças climáticas. Depende também das instituições e da vontade política. Têm de andar todos de mãos dadas. Faz-se agricultura para ter rendimento, não prejuízo”, declara. Além dos apoios existentes, de organizações não governamentais e do próprio Governo, David Fonseca quer um maior acompanhamento no terreno e uma resposta mais coordenada. A Leste No Planalto Leste, os sinais de escassez hídrica são particularmente visíveis na paisagem árida. Para piorar, os moradores de Lagoa dizem que há quase um ano não é criada uma frente de trabalho. Aquiles Cunha comenta que a situação está a deixar várias famílias, sobretudo as chefiadas por mulheres, sem meios para fazer face às despesas. “Normalmente, nesta altura já estamos com chuva, mas neste momento a situação está complicada. Quase não choveu o ano todo. A comunidade está abandonada. Estamos à nossa sorte”, afirma. Sem pasto, os criadores recorrem à compra de milho e ração para alimentar os animais, mas os custos são cada vez mais difíceis de suportar. A pouca chuva também afecta a produção de queijo e obriga os criadores a venderem os animais. “As pessoas tentam desenrascar-se, a comprar milho e ração, mas sem chuva não há dinheiro, porque é através do queijo que vem o rendimento. Se não chove, as cabras estão secas. Muitos têm de vender os animais ao desbarato”, relata. Francisco Pinto, outro morador de Lagoa, pede uma presença mais próxima das autoridades locais. “Desde que estamos nesta seca, ainda não vimos uma pessoa da Câmara. Era preciso que viessem cá, mesmo que não tivessem nada para dar às pessoas, mas que se inteirassem da situação”, apela. “Não esperamos um bom ano. Este ano, as famílias vão ficar sem a principal fonte de rendimento, os queijos e os cabritos que normalmente vendemos para o Natal”, antecipa. Gestão hídrica A situação é menos crítica no vale de Ribeira da Torre. Zona húmida por excelência, ainda dispõe de reservas de água. No local, o principal desafio é a gestão sustentável dos recursos hídricos. O agricultor Armindo Cruz espera maior investimento em tanques, levadas e sistemas de rega gota a gota, para reduzir o desperdício e aumentar a rentabilidade. “Ribeira da Torre é um vale rico em água, mas nem sempre a água é bem aproveitada. Todos os anos, vê-se a água a correr para o mar, quando também há propriedades que ficam a montante e que têm necessidade de melhorias”, detalha. A eficiência da rega passa pela capacidade de armazenar e distribuir a água durante períodos mais longos. Armindo Cruz diz que já existem zonas com estruturas de captação, mas é possível ir mais longe. “Há lugares onde foi feita esta captação e há impacto, mas ainda há necessidade de melhorias, para abastecer zonas mais altas, porque há zonas que se regam durante três a quatro meses. Quando se rega gota-a-gota, a água dura mais meses”, complementa. Apesar de uma situação globalmente melhor do que a de outras zonas de Santo Antão, se o cenário de chuva escassa e irregular continuar, os problemas acabarão por surgir. Roseno Lima, agricultor, explica que a diminuição da disponibilidade de água já se faz sentir. “Choveu pouco, então, as nascentes baixaram o caudal e, quando assim é, temos problemas no regadio”, declara. Roseno não perde a esperança de que a seca que se instala ainda possa ser contrariada, mesmo reconhecendo que, para alguns agricultores, a chuva já virá tarde. “Para nós, se chover, é bom, porque aumenta o caudal das nascentes, é a nossa esperança. Mas para a agricultura de sequeiro já não”, avalia. Governo prepara resposta O Governo trabalha com o cenário de um mau ano agrícola. Há duas semanas, antes da passagem da tempestade Gonzalo pelo país e durante uma visita à região Norte, a ministra da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, Eveline Ramos, anunciou que a tutela tem um projecto com um orçamento inicial de mil milhões de escudos e está a mobilizar parceiros internacionais. “Já tivemos um primeiro encontro com a FAO para a questão da sensibilização, para nos ajudar na mobilização de parcerias. E, mesmo em Roma, tive a oportunidade de falar com o secretário-adjunto da FAO”, disse. O plano inclui o reforço das infra-estruturas de abastecimento de água para animais, bem como apoios à aquisição de pasto e ração. Estão previstas medidas de criação de emprego para apoiar as famílias mais vulneráveis. “O Governo, neste momento, está a preparar-se para o pior, esperando que o melhor aconteça”, garantiu. Em declarações em São Vicente, Eveline Ramos revelou existirem equipas no terreno a avaliar a situação. Questionada sobre possíveis intervenções de emergência em regiões mais críticas, a governante prometeu acções prioritárias. “Vamos priorizar normalmente as áreas onde no ano passado não houve muita produção. Vamos começar por estas ilhas e localidades onde não choveu muito no ano passado, porque são as ilhas e localidades que vão sofrer um bocado com esta tardia chegada das chuvas. Então, a nossa intervenção, prioritariamente, vai [incidir] nestas localidades e ilhas”, explicou. _________________________________________________________ Agricultura de Santo Antão precisa de outras respostas Para lá da chuva (ou da falta dela), a agricultura em Santo Antão enfrenta dificuldades provocadas pela escassez de mão-de-obra, por sistemas de rega antiquados e pela falta de acesso ao mercado. Segundo António Carente Pires, presidente da Associação Agro-industrial da ilha, a desvalorização de alguns produtos agrícolas e a descapitalização dos produtores limitam a capacidade de investimento. A situação é diferente entre os vários vales da Ribeira Grande. Enquanto Ribeira da Torre apresenta melhores condições, os vales da Ribeira Grande e da Garça enfrentam situações de maior abandono. “É necessário e urgente que haja uma política agrária eficaz, que não só crie uma certa fiscalização dos produtos agrícolas, principalmente do grogue, mas também permita que haja mais acesso a mercados (…). Precisamos de investimentos. O Estado tem de criar linhas de financiamento com juros bonificados e até a fundo perdido, para que os agricultores e os comerciantes consigam investir nessa área de protecção dos produtos agrícolas”, nota. Entre as respostas defendidas está o reforço do investimento em água. António Carente Pires reconhece que a dessalinização apresenta maiores dificuldades no concelho da Ribeira Grande devido à orografia, mas entende que, em Porto Novo, essa solução se tornou necessária para expandir a produção. “O Ministério da Agricultura deveria sentar-se com os produtores, os agricultores e os proprietários e chegar a uma conclusão, em vez de fazer um bocadinho aqui ou acolá”, defende. O presidente da Associação Agro-industrial advoga uma maior presença da agricultura no Orçamento Geral do Estado e entende que continua a faltar uma estratégia para o sector. *Com Lourdes Fortes Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1296 de 30 de Setembro de 2026.

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