As três dimensões do burnout feminino
Afastamentos por burnout crescem mais de 800% em quatro anos Na terça-feira, escrevi sobre como fatores de risco subestimados tornam o AVC em mulheres ainda mais perigoso. Hoje, continuo tratando do cérebro feminino – dessa vez, abordando o burnout, tema da palestra da psicóloga e escritora Ana Luiza Novis no Neuro 2026. “O burnout é um fenômeno relacionado ao trabalho, mas, quando falamos de mulheres, precisamos ampliar o olhar. Afinal, a sobrecarga começa bem antes da jornada profissional”, afirmou, acrescentando que o problema repercute em três dimensões: social, institucional e política. Burnout feminino: a sobrecarga começa bem antes da jornada profissional ArtDreams92 para Pixabay “Na dimensão social, vemos mulheres adoecerem porque passam anos sustentando uma trama de expectativas que parece não ter fim: cuidar, trabalhar, organizar, acolher, resolver problemas, antecipar necessidades, frequentemente com pouco reconhecimento”, analisou. “Há uma carga mental invisível, que inclui pressão por desempenho, culpa materna e injustiça de gênero, com demissões durante a gravidez ou na menopausa”, completou, lembrando que, segundo o IBGE, elas dedicam 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos, enquanto essa carga é de apenas 11 horas entre os homens. Na dimensão institucional, encontramos um vício de origem: as organizações simplesmente foram pensadas para o trabalho sem responsabilidade de cuidado. Ou seja, quem tem filhos deve se comportar como se eles não existissem – e o mesmo se aplica a pais enfermos ou em processo de declínio cognitivo. “A cultura da disponibilidade permanente e de jornadas prologadas se soma a metas excessivas e pouco reconhecimento. Muitas mulheres ainda convivem com assédio moral e sexual: comentários sobre a aparência, interrupções constantes durante as reuniões, desqualificação da competência, constrangimentos e abuso de poder são exemplos de violência psicológica que desgastam profundamente a saúde mental”, enumerou Novis. Por fim, na dimensão política, a grande questão é: quem cuida de quem cuida? “Quando entendemos que o burnout feminino é produzido por fatores sociais e institucionais, percebemos que sua prevenção depende de escolhas como políticas públicas de cuidado; ampliação do número de creches; licença parental compartilhada; igualdade salarial; combate ao assédio; e ambientes psicologicamente seguros”, enfatizou. Novis citou também a sobrecarga nas profissões de cuidado, como as da área da saúde, envolvidas em níveis críticos de exaustão: atuam em setores de alta complexidade e convivem com a precariedade de infraestrutura, insatisfação salarial e falta de oportunidades de crescimento profissional. Na sua opinião, assistimos, inclusive, a uma outra forma bastante tóxica de lidar com a situação: “São as pessoas viciadas em desempenho, que trabalham 14 horas por dia e passam o tempo todo dizendo que está tudo ótimo”. Fatores modificáveis para evitar a demência Sempre é bom lembrar que dois terços dos pacientes com Doença de Alzheimer são mulheres – e os países de baixa e média renda serão os mais afetados pela enfermidade nos próximos anos. No entanto, há 14 fatores de risco modificáveis com potencial de prevenir 45,3% dos casos de demência no mundo. No Brasil, esse percentual é mais impressionante: chega a 59,5%. Vamos a eles: nível de escolaridade, depressão, sedentarismo, hipertensão, diabetes, obesidade, perda de audição, lesões traumáticas no cérebro, LDL (o colesterol ruim) alto, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda de visão, poluição atmosférica e isolamento social.