Existe alimento que muda o cheiro e o gosto do corpo na hora do sexo?
<img src="https://s2-g1.glbimg.com/Wt-T78e7HAWvKGMxQXdJOZ8PSHw=/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/3/d/JJMpBiS7qBItfs1NKQsA/retrato-fotorrealista-de-pessoa-com-fruto-de-abacaxi.jpg" /><br /> Freepik Microbiota, hormônios, hidratação e estilo de vida definem o cheiro e o gosto dos fluidos corporais. O abacaxi, não. Apesar da crença que circula em conversas de casal e nas redes sociais, não há comprovação científica de que qualquer alimento adoce a região íntima ou melhore o sabor do sêmen de forma direta. No Dia Internacional do Sexo, celebrado em 6 de setembro, ginecologistas ouvidas pelo g1 explicam por que a resposta está no funcionamento do corpo como um todo —e não no cardápio. Ligação entre comida e fluidos existe, mas é indireta Raquel Magalhães, ginecologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, afirma que a alimentação não atua diretamente sobre o cheiro ou o gosto das secreções. O que ela pode fazer é interferir no pH e no ambiente biológico de forma indireta, favorecendo ou dificultando o equilíbrio da microbiota, sem qualquer efeito imediato ou previsível. É essa mediação sutil que sustenta o mito. Segundo a ginecologista, dietas carregadas de açúcares e carboidratos refinados podem modificar o ambiente das mucosas e das secreções. Nas mulheres, o excesso de glicogênio tende a favorecer desequilíbrios da flora vaginal, como a candidíase, capazes de alterar odor e conforto. O ponto, ressalta, é que o alimento não "adoça" a secreção —ele apenas cria um terreno mais propício a alterações. O raciocínio se estende ao sêmen, que tem composição própria e pH naturalmente alcalino, influenciado por hidratação, saúde metabólica, consumo de álcool, tabagismo e pelos hábitos alimentares em conjunto. Ainda assim, não reage de forma imediata a nenhum item específico do cardápio. Por isso, embora o abacaxi apareça com insistência nessas conversas, não há recomendação médica formal de alimentos que mudem o cheiro ou o gosto íntimo. "Beber água na quantidade certa e manter uma alimentação equilibrada pesa muito mais do que qualquer alimento tomado isoladamente", diz a médica. Vanessa Cairolli, ginecologista e obstetra, compartilha a avaliação. Ela lembra que o corpo não opera em compartimentos isolados: a alimentação influencia o organismo inteiro —suor, secreções e sêmen incluídos—, mas nunca de maneira imediata ou direcionada a um resultado. Freepik O que realmente muda cheiro e gosto Cheiro e sabor dos fluidos, explicam as especialistas, nascem da combinação de vários fatores, com destaque para o equilíbrio biológico geral. Entram nessa conta a microbiota, cujo balanço de bactérias nas mucosas influencia odor e secreções; as oscilações hormonais, que mexem na sudorese e na composição dos fluidos; e a hidratação, já que líquidos mais concentrados costumam ter odor mais intenso. Somam-se ainda os hábitos alimentares gerais, capazes de favorecer inflamações quando desequilibrados; a higiene e os produtos usados, que alteram o pH quando aplicados em excesso; e o estilo de vida, com álcool, tabagismo, estresse e sono compondo o quadro. O corpo produz diferentes fluidos —secreções vaginais, sêmen, suor— e todos refletem o funcionamento global do organismo, resume Raquel. Não existe, segundo ela, um alimento capaz de corrigir isso de forma pontual. Ter cheiro não é problema Um dos equívocos mais comuns é tratar qualquer odor como sinal de sujeira. Secreções e fluidos têm cheiro próprio, que varia ao longo do ciclo menstrual, depois da relação sexual ou conforme a hidratação —mudanças esperadas e passageiras. O sinal de alerta aparece quando o odor é intenso, persistente ou vem acompanhado de outros sintomas, como dor, coceira, ardor, corrimento diferente do habitual ou desconforto durante o sexo. Nesses casos, explica Raquel, a origem costuma ser clínica —uma infecção, uma inflamação ou um desequilíbrio— e não alimentar, o que torna a avaliação médica indispensável. AdobeStock Duchas e truques caseiros atrapalham Na tentativa de mascarar cheiro ou gosto antes da relação, muita gente recorre a duchas íntimas, produtos perfumados e receitas caseiras. As especialistas são categóricas ao desaconselhar. Para Raquel, essas práticas alteram o pH, desequilibram a microbiota e aumentam o risco de infecções —o corpo não precisa ser neutralizado. Vanessa acrescenta que a higiene adequada se resume a cuidados simples, voltados à parte externa, sem interferir nas mucosas, e adverte que a ducha vaginal, longe de prevenir infecções, pode provocá-las. Entre as orientações que de fato ajudam estão a higiene diária com água e sabonete neutro, a boa hidratação, a preferência por roupas íntimas de algodão, o cuidado para evitar umidade prolongada, a atenção ao tipo de absorvente, o uso criterioso de probióticos quando indicados e a consulta ginecológica regular. A região íntima, sintetiza Raquel, não precisa ser doce, perfumada nem ter gosto de fruta —precisa estar saudável, equilibrada e confortável. Cobrança tira o prazer de cena Por trás da pergunta sobre o gosto do abacaxi há uma camada que a biologia não explica: a pressão estética dirigida quase exclusivamente ao corpo feminino, que costuma se manifestar com mais força justamente nos momentos de maior intimidade. Marina Vasconcellos, psicóloga, psicodramatista e terapeuta familiar pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa que se construiu a ideia de uma vagina neutra, sem cheiro e sem gosto, como se ela não pertencesse a um corpo vivo. O resultado é que muitas mulheres passam a interpretar qualquer odor como defeito, quando o corpo saudável também tem cheiro. Não é raro, segundo ela, que mulheres cheguem ao consultório sem nenhuma alteração clínica, movidas apenas pelo medo de desagradar o parceiro. Elas relatam tensão durante o sexo oral, evitam certas posições ou criam rituais de limpeza exagerados antes da relação —um desconforto que não vem da vagina, mas da expectativa depositada sobre ela. Marina aponta que padrões estéticos e a pornografia reforçam a imagem de um corpo feminino desejável sem pelos, sem secreções visíveis e sem cheiro, o que desloca o foco do prazer para uma vigilância constante. Ocupada em se avaliar, a mulher deixa de estar presente na própria experiência. Essa cobrança atinge diretamente o desejo. Quando a preocupação com o cheiro toma conta, diz a psicóloga, o prazer se retira e o sexo vira desempenho. "Cuidar da saúde íntima é legítimo; o problema começa quando esse cuidado se transforma na tentativa de apagar algo natural para caber em um padrão irreal —o que só produz ansiedade, vergonha e distância da própria sexualidade."
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