Aquacultura: Transformar potencial em oportunidade

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Carlos Santos, CEO of a shrimp farm in São Vicente, is calling for clear decisions and executive oversight to improve aquaculture. He argues that while good plans exist, implementation often stalls or lacks direction. Two years ago, the World Bank advised Cabo Verde to identify zones with potential for aquaculture development. This activity is seen as a way to grow the country's blue economy.

“Precisamos de decisões claras, uma implementação acompanhada pelo próprio executivo”, diz ao Expresso das Ilhas Carlos Santos, CEO da Fazenda de Camarão, em São Vicente. “Assim acabariam por fazer acontecer para termos os resultados que desejamos. Às vezes há bons proje c tos e bons planos , mas depois quando é necessária a implementação , as coisas ficam em banho-maria, ou a andar de um lado para o outro e não acontecem”, sublinha. Há dois anos, o Banco Mundial avisava Cabo Verde para começar a delimitar zonas com potencial para o desenvolvimento de aquacultura, actividade apontada como solução para desenvolver a economia azul no país. Actualmente, segundo dados fornecidos pelo biólogo marinho José Almada Dias, o arquipélago produz 40 toneladas de peixe e crustáceos em aquacultura, em quatro localizações concretas: três em São Vicente e outra no Sal. Na Fazenda do Camarão, como o nome indica, produz-se camarão, em Ribeira de Calhau. A tempestade Erin provocou uma série de estragos. A área de produção chegou a cair para 40%. Apesar de já ter recuperado para 60%, a empresa está a trabalhar para, no fundo , pagar as contas. “Conseguimos recuperar o que foi possível com fundos próprios”, explica Carlos Santos, “as partes vitais da empresa , como a maternidade – a unidade de reprodução dos camarões – já estão a funcionar a 100%. Já conseguimos recuperar a maioria dos nossos equipamentos de produção de energias renováveis que tinham sido afe c tados. Conseguimos recuperar a nossa unidade de dessalinização. Fomos dando os passos que conseguimos, mas conseguir recuperar toda a área… Estávamos numa fase de implementação que ia triplicar o nosso volume de produção de camarão, mas agora só se conseguirmos um financiamento forte que nos possa permitir avançar”. Mas conseguir o dinheiro necessário, reforça, não é fácil. “Continuamos a tentar possibilidades públicas, no âmbito do diploma que saiu onde o Governo prometia algumas facilidades para conseguir créditos com baixas taxas de juro. Queríamos conseguir algum financiamento e depois completar com financiamento privado”. O diploma falava na possibilidade de conseguir essas facilidades para quem tivesse perdas que ultrapassassem os 20 mil contos. A Fazenda do Camarão teve perdas, vistoriadas pelo Ministério das Infra-Estruturas, que ultrapassaram os 50 mil contos. “Em princípio”, diz Carlos Santos, “estaríamos elegíveis para conseguir um crédito bonificado pelo Estado à taxa de 2,5% até um valor de 20 mil contos. O resto teria de ser procurado com outros parceiros privados, mas teríamos de dar primeiro um passo forte no sentido de ter parte das instalações recuperadas para cativar o interesse de privados que quisessem financiar, juntamente com a parte que estamos a tentar no público”. “Estávamos bem encaminhados”, refere o CEO. “Depois houve eleições. O novo elenco ainda está a conhecer os meandros. Já tivemos algum contacto com os novos ministros. Acreditamos que em breve teremos uma posição. Até agora, demonstra-se vontade, reconhece-se o interesse na actividade. Acreditamos que será possível”. Aquacultura e economia azul Hoje o mar exige inovação, sustentabilidade e ambição empresarial, como afirmou o presidente da Câmara do Comércio do Barlavento. “Aaquacultura é um sector em afirmação com projectos concretos. Falamos da criação de camarão, de espécies de alto valor comercial e gastronómico, atum e esmoregal. Porquê a aquacultura e porquê agora? Vivemos num momento de transição. A pressão sobre os stocks pesqueiros selvagens, as alterações climáticas e a crescente exigência por segurança alimentar impõem uma resposta clara: temos de produzir com inteligência, previsibilidade e muito rigor ambiental”, disse Jorge Maurício. “A aquacultura oferece essa ponte entre conservação e crescimento económico sustentável. Permite valorizar o potencial marítimo, aproveitar a qualidade das nossas águas e aproveitar a posição estratégica de São Vicente. Diversificar a economia e gerar emprego, criar postos de trabalho qualificados, atrair investimento privado e integrar novas tecnologias e conhecimento científico na nossa cadeia de valor. Abastecer o mercado local e exportar, não na quantidade que desejávamos para já, mas vamos lá chegar”, sublinhou o responsável. Segundo dados da FAO partilhados por Almada Dias, em 2004, a aquacultura produzia 43% do peixe consumido e a pesca tradicional contribuía com 57%. Em 2024, ano dos últimos dados, a aquacultura produziu aproximadamente 59% e a pesca 41%. Em termos de evolução da produção mundial, a aquacultura passou de 59,4 milhões de toneladas em 2004 (um valor de 70,3 mil milhões de dólares) para 141,6 milhões de toneladas em 2024 (391,5 mil milhões de dólares). Os principais países produtores de aquacultura são a China, a Indonésia e a Índia. Por continente , a Ásia produz 91,84% do total mundial, a América 3,59%, a Europa 2,46%, África 1,93% e a Oceânia 0,18%. Na Macaronésia, a produção de aquacultura é de: 40 toneladas de camarão e 290 toneladas de esmoregal em Cabo Verde, 7.943 toneladas nas Canárias (75 milhões e 104 mil dólares), 1.362 toneladas na Madeira (8,5 milhões de dólares). Não há dados dos Açores. Entre os pequenos estados insulares independentes, as Maurícias produzem 1.887 toneladas e as Seychelles 100 toneladas. Os maiores produtores são as Ilhas Salomão (30.510 toneladas), Cuba (13 . 647 toneladas) e República Dominicana (4.200 toneladas). O público e o privado É uma das críticas recorrentes há anos : os investidores têm um ritmo e a administração pública tem outro , muito mais lento. “É a parte executiva do Estado que tem de decidir”, diz Carlos Santos, “e essas decisões devem ser implementadas de forma rápida. Nem sempre é assim. Porque temos tido decisões relativamente rápidas, mas depois a implementação é que é morosa e muitas vezes nem funciona. Quando chega aos decisores intermédios da administração pública, dire c tores, etc., já as coisas demoram imenso a serem resolvidas e, às vezes, não são resolvidas, independentemente da vontade do executivo. E aqui acredito que continuamos a ter um imenso problema em Cabo Verde; a vontade executiva não é executada de forma célere, como devia ser, porque a máquina pública acaba por ganhar uma certa vontade própria”. A celeridade torna-se mais urgente quando falamos de uma actividade de financiamento intensivo que, como lembrou Jorge Maurício, exige prazos de maturação próprios, licenciamentos céleres, quadros regulatórios estáveis e acompanhamento técnico e financeiro adequado. “Hoje, dificilmente poderíamos dizer que a aquacultura é uma coisa nova”, sublinha o CEO da Fazenda do Camarão. “Nós já estamos no mercado desde 2018 com alguma regularidade. Não com as quantidades que gostaríamos , mas com alguma regularidade. Já há produtos de aquacultura no mercado nacional. Mas ainda hoje, quando vamos a algumas instituições, deparamo-nos com problemas de interpretação de como é que a aquacultura tem de funcionar, que benefícios teria de ter, etc., nós ainda hoje – e quem vem atrás de nós tem problemas ainda maiores – porque o mercado é pequeno e a produção tem de ser exportada e aí, depois de muitos anos de aquacultura, ainda enfrentamos problemas como se fosse uma coisa nova”. Neste momento, a empresa tem 28 trabalhadores. Se tivessem conseguido implementar o projecto original, garante Carlos Santos, já estariam com mais de 50 trabalhadores. Em 2025, se não fosse a tempestade Erin, deveriam ter terminado o ano um pouco acima de 50 toneladas de produção de camarão. Assim, ficaram em cerca de 40 toneladas porque grande parte do cultivo foi perdido. Em 2026 , vão produzir metade do que conseguiram no ano passado. “Se tivéssemos conseguido implementar o proje c to, em dois anos queríamos chegar às 150 toneladas, o que significaria estancar quase por completo – 90% digamos – da importação de camarão”, diz Carlos Santos. “Antes de começarmos a produzir, Cabo Verde não tinha nenhum camarão, 100% era importado. Já conseguimos dar uma boa contribuição, mas que neste momento está limitada às ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau, porque são os mercados mais perto, e não temos as quantidades que nos permitiriam entrar em força nas ilhas turísticas ou em Santiago, onde necessariamente há um poder de compra superior”. Neste momento, qualquer saldo positivo é investido imediatamente nalguma prioridade de recuperação da fazenda, mas o passo mais importante que o CEO identifica é conseguir o financiamento para recuperar as áreas de produção perdidas. “É nisto que temos de nos concentrar. Com isso fica relativamente fácil relançar a fazenda de camarão na dimensão que devia ter”. “Capacidade técnica existe”, garante Carlos Santos, “a nossa capacidade de produção de pós-larvas de camarão é de três vezes mais do que a que necessitamos, [a fase de pós-larva é crítica no ciclo de vida de crustáceos e de peixes, marcando a transição do desenvolvimento larval para a forma juvenil]. Como o mais difícil é a reprodução, poderíamos fornecer possíveis projectos de engorda, que é muito mais simples e sem a complexidade de reproduzir os animais. Portanto, somos apelativos para novos projectos nacionais e quem sabe no futuro exportar as pós-larvas porque na Europa não existem maternidades de reprodução deste tipo de camarão, continuam a comprar aos Estados Unidos, e nós estamos muito mais perto. Ou seja, há um potencial muito interessante e que pode ser aproveitado”. Desafios e possibilidades Na apresentação pré-conferência, o biólogo marinho Almada Dias identificou os sete desafios principais da aquacultura, as respectivas oportunidades correspondentes e as prioridades para Cabo Verde. Por exemplo, ao desafio dos custos de energia, alimentação e transporte corresponde a oportunidade de recorrer a energias renováveis, melhorar a eficiência alimentar e utilizar ingredientes locais, sendo a prioridade reduzir o custo por quilo antes de aumentar a escala. Se o principal desafio é o abastecimento de juvenis, pós-larvas e rações, a oportunidade correspondente é desenvolver maternidades e fornecedores locais, e a prioridade é garantir qualidade sanitária e continuidade do abastecimento. Num terceiro exemplo, se o principal desafio é o conhecimento técnico especializado, a oportunidade correspondente é apostar na formação, na investigação e em parcerias internacionais, e a prioridade para Cabo Verde é reforçar a reprodução, a nutrição, a sanidade e a gestão. Mas Almada Dias apontou também oportunidades mais concretas: quatro caminhos para desenvolver a produção e criar valor: abastecimento do turismo (peixe e camarão com qualidade uniforme e entregas programadas e contratos entre produtores, hotéis e restaurantes), exportação de maior valor (espécies cujo preço suporte os custos da insularidade, sendo o esmoregal da Nortuna é uma aposta comercial identificada), fornecedores nacionais (rações, manutenção, transporte, frio e transformação e aproveitamento de ingredientes da indústria do pescado) e expansão territorial gradual (usar a experiência de São Vicente para testar outros locais). “Na economia azul, a aquacultura pode desempenhar um papel muito importante”, diz Carlos Santos. “Nós falamos de aquacultura em terra, que é limitada, o verdadeiro potencial está obviamente na maricultura, a utilização da lâmina marítima para a produção, e aqui para Cabo Verde as potencialidades são verdadeiramente enormes. As condições que várias ilhas têm ou poderão ter para o cultivo em jaulas marinhas poderia m dar uma contribuição extraordinária para o desenvolvimento de Cabo Verde. Mas para que isso aconteça, os poderes têm que estar abertos a tomar decisões rápidas, bem informadas, mas a aquacultura pode verdadeiramente ser um motor de desenvolvimento para Cabo Verde”, conclui o CEO da Fazenda de Camarão. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.

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