Universidades formam, mas o mercado absorve?

expressodasilhas.cv · world
Full story

Patrícia Gonçalves spent four years working as a secretary after graduating with a degree in Geography. She spent this time searching for a professional opportunity in her field of study. She eventually entered the teaching profession after a contact referred her for an interview. She describes the process as difficult because she lacked professional contacts and felt the market was saturated. A lack of professional experience was one of the primary obstacles she faced.

Formada em Geografia, Patrícia Gonçalves passou quatro anos a exercer funções fora da sua área de especialização, enquanto procurava uma oportunidade na profissão para a qual se preparou. Durante esse período, trabalhou como secretária, sem abandonar a procura de uma colocação na sua especialidade. A entrada na docência acabou por acontecer através de uma entrevista para a qual foi encaminhada por intermédio de um conhecido. “Para mim foi um bocadinho difícil porque não tinha contactos, o mercado está saturado. Então, através desse contacto que surgiu, fui para a entrevista”, conta. A falta de experiência profissional constituiu, segundo a própria, um dos principais entraves durante os anos em que procurava uma colocação na sua área de formação. “Além disso não havia vaga de emprego para a minha área. Não há vaga e não há experiência”, lamenta. Questionada sobre se voltaria a optar pela mesma área, Patrícia admite que se arrepende, sobretudo pelas barreiras que encontrou na entrada no mercado de trabalho. “Arrependi-me, sobretudo depois de observar a nossa realidade. E o pior é que esta situação não se limita ao meu curso nem à minha experiência individual”, relata. A licenciada diz conhecer antigos colegas que continuam sem exercer funções relacionadas com a formação que receberam. Alguns permanecem sem emprego, enquanto outros optaram pela emigração, procurando noutros países as oportunidades que não conseguiram encontrar no arquipélago. Se pudesse voltar a escolher um curso, Patrícia afirma que ponderaria áreas como Contabilidade, Secretariado ou Marketing, por considerar que poderão oferecer melhores perspectivas profissionais. Ainda assim, reconhece que a escolha de uma formação, por si só, não garante uma colocação no mercado nacional. Seis anos à procura de uma oportunidade Isidora Florêncio concluiu a licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia, no Instituto Superior de Ciências Jurídicas, em 2020, com a expectativa de que a formação lhe abrisse portas para uma carreira profissional. Seis anos depois, continua sem conseguir exercer na área em que se formou e admite que, se pudesse voltar atrás, escolheria outro percurso académico. A escolha do curso esteve relacionada com a possibilidade de aprender línguas estrangeiras, nomeadamente inglês e francês. Durante a formação, as possibilidades profissionais apresentadas por alguns professores também contribuíram para alimentar as suas expectativas. “Inicialmente não tinha nenhuma expectativa, mas, durante as aulas, havia professores que incentivavam e diziam que era um curso com muitas saídas. Podíamos fazer um mestrado e especializar-nos em algo que identificássemos”, recorda. A entrada no mercado de trabalho, contudo, não correspondeu ao que esperava. Desde 2020 que procura uma oportunidade na sua área de formação, tendo apresentado candidaturas para estágios no Ministério dos Negócios Estrangeiros e procurado possibilidades noutras instituições, incluindo a União Europeia e a Embaixada de Portugal, sem conseguir a colocação pretendida. A falta de experiência profissional é, na sua perspectiva, um dos principais obstáculos à integração dos recém-formados. Apesar de considerar que saiu da universidade preparada para as oportunidades que pudessem surgir, entende que as exigências do mercado dificultam o acesso de quem procura a primeira experiência. “O problema é que, na nossa sociedade, as oportunidades são entregues às pessoas que possuem experiência, não a quem acabou de se formar”, considera. Isidora diz conhecer colegas que, embora não estejam necessariamente desempregados, também não exercem profissões relacionadas com a formação superior que receberam. Perante as dificuldades, começou a ponderar outras alternativas profissionais e a frequentar uma formação em estética e manicure, áreas que considera poderem oferecer saídas profissionais. Fê-lo, conforme conta, para ganhar algum dinheiro e compensar o esforço financeiro feito pelos pais, que não tinham condições para custear os estudos superiores. Sem conseguir a colocação que procura, Isidora admite que a falta de perspectivas profissionais condiciona os seus projectos de vida e a independência financeira. A possibilidade de emigrar também está em cima da mesa, sobretudo porque sente que o tempo passa sem conseguir alcançar a estabilidade que ambicionava. “Penso em sair caso não consiga um trabalho na minha área, porque a idade não pára e encontro-me numa fase em que já poderia estar bem-sucedida e realizada em alguns aspectos”, afirma. Se tivesse de escolher novamente, a jovem afirma que optaria por Economia, área que considera oferecer melhores perspectivas de realização profissional. Estado continua a ser o principal empregador dos diplomados A Universidade de Santiago (US) tem vindo a alterar a sua oferta formativa, tendo em conta as perspectivas de empregabilidade dos diplomados, a sustentabilidade da instituição e as necessidades do país. Ao longo dos seus 18 anos de actividade, a universidade encerrou algumas formações e apostou noutras áreas, procurando adequar os cursos às oportunidades profissionais existentes. Luís Rodrigues, chefe do Departamento de Ciências da Educação, Filosofia e Letras da instituição, explica que a definição da oferta formativa decorre da autonomia das universidades, mas exige também uma avaliação contínua dos resultados alcançados pelos antigos estudantes. “Começámos com alguns cursos que tinham pouca empregabilidade e que acabaram por ceder espaço a outros, em áreas que consideramos mais interessantes do ponto de vista da empregabilidade, da sustentabilidade da universidade e que vão mais ao encontro das necessidades do país”, afirma. Um dos exemplos é o curso de Serviço Social e Políticas Públicas, que, apesar de despertar interesse entre os candidatos, acabou por ser descontinuado devido às dificuldades de integração profissional dos diplomados. Os estudos realizados pela instituição indicavam que muitos demoravam mais de dois anos a conseguir emprego na área e que nem todos chegavam a exercer funções relacionadas com a formação recebida. Já os cursos de Filosofia e História, leccionados numa única edição, em 2008, ano de abertura da universidade, foram descontinuados, mas não necessariamente por falta de saídas profissionais, uma vez que praticamente todos os estudantes que os concluíram conseguiram trabalhar, sobretudo como professores na área da educação. A avaliação da situação profissional dos diplomados é, por isso, um dos instrumentos utilizados pela US para acompanhar os resultados da formação. Segundo o estudo de empregabilidade mais recente, realizado em 2025, 80% dos antigos estudantes abrangidos estavam empregados. Desse grupo, 57% trabalhavam na área em que se formaram. Os dados apresentados pelo responsável revelam ainda que 92% dos inquiridos consideravam ter preparação suficiente para desempenhar as suas funções profissionais apenas com a licenciatura. Quanto ao tempo necessário para conseguir trabalho, cerca de 66% obtinham uma colocação no prazo de um ano, equase metadeconseguia-o nos primeiros seis meses. “Os indicadores são, apesar de tudo, interessantes. Cerca de dois terços dos estudantes conseguem emprego até um ano, e quase metade consegue-o nos primeiros seis meses”, refere. A distribuição dos diplomados pelos diferentes sectores de actividade revela que 60% dos antigos estudantes trabalhavam no sector público, 36% no privado e apenas 4% por conta própria. “Este dado em que temos mais de metade dos estudantes a trabalhar no sector público e apenas 4% por conta própria diz-nos que ainda haverá muito a fazer ao nível da criação do auto-emprego e do empreendedorismo”, considera. O responsável reconhece, contudo, que a responsabilidade pela empregabilidade não pode ser atribuída exclusivamente às universidades. Embora estas devam acompanhar as transformações económicas e ajustar os cursos às necessidades identificadas, a capacidade de absorção dos diplomados depende igualmente das oportunidades criadas pelas empresas e pelo próprio Estado. Entre as áreas com melhores indicadores de empregabilidade, Luís Rodrigues aponta as ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas, conhecidas internacionalmente pela sigla STEM. Nestas formações, alguns estudantes conseguem encontrar trabalho ainda durante os estágios, antes mesmo de concluírem a licenciatura. Na área da saúde, pelo contrário, a integração profissional pode ser mais demorada. Ainda assim, a universidade não considera que os dados justifiquem o encerramento dos cursos, tendo em conta a necessidade de profissionais neste sector. “É uma área ainda altamente deficitária. A questão fundamental prende-se com o quase monopólio do Estado na contratação destes profissionais e com a fragilidade do sector privado na sua absorção”, esclarece. A universidade, segundo o responsável, oferece formações de curta duração em competências transversais e língua inglesa, abertas a estudantes e diplomados, com o objectivo de reforçar as suas capacidades de integração no mercado. Entretanto, a instituição tem observado uma tendência crescente de jovens que prosseguem directamente para o mestrado depois de concluírem a licenciatura, incluindo aqueles que ainda não conseguiram emprego na sua área. Tradicionalmente frequentada sobretudo por pessoas já empregadas, esta formação começa também a ser encarada por alguns recém-licenciados como uma forma de aprofundar conhecimentos enquanto aguardam oportunidades profissionais. A reportagem tentou igualmente obter contributos de outras universidades do país, mas, até ao fecho desta edição, apenas a US respondeu ao pedido de entrevista. ARES avalia os cursos, mas não dispõe de inquérito próprio sobre empregabilidade A adequação da formação superior às necessidades do mercado de trabalho é um dos critérios considerados pela Agência Reguladora do Ensino Superior (ARES) nos processos de avaliação e acreditação dos cursos. Contudo, a instituição não dispõe de um inquérito específico que permita acompanhar e comparar a empregabilidade dos diplomados por curso ou instituição de ensino superior. “Actualmente, a ARES não dispõe de um inquérito específico sobre a empregabilidade dos diplomados por curso ou por instituição de ensino superior”, esclarece a agência. Embora não tenha um instrumento próprio para esta finalidade, a ARES exige informações sobre a inserção profissional dos diplomados nos processos de reacreditação dos ciclos de estudos. A análise procura perceber se a formação oferecida corresponde às necessidades do país, se existem oportunidades de emprego nas respectivas áreas e se os cursos mantêm relevância social e profissional. A agência recorre ainda a outros mecanismos de acompanhamento, como relatórios, visitas técnicas e avaliações dos cursos em funcionamento. A partir destes procedimentos, pode recomendar alterações, exigir medidas correctivas ou estabelecer condições quando identifica problemas que comprometam a qualidade, a relevância ou a sustentabilidade de uma formação. “A adequação dos ciclos de estudos às necessidades do mercado de trabalho constitui um dos aspectos considerados nos processos de avaliação e acreditação conduzidos pela ARES”, refere a instituição. A definição da oferta formativa, porém, cabe às próprias instituições de ensino superior, que dispõem de autonomia científica, cultural, pedagógica e, nos termos da lei, de outras competências institucionais. À ARES compete avaliar os cursos e verificar se cumprem os requisitos aplicáveis, não lhe cabendo garantir a criação de postos de trabalho ou a colocação profissional dos diplomados. Para aproximar a formação das necessidades do mercado, a agência considera necessário reforçar a cooperação entre universidades e empregadores, envolvendo as empresas na concepção e actualização dos cursos, na definição dos perfis de competências e na criação de oportunidades de estágio, projectos conjuntos e outras experiências profissionais. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.

Read full article → Compare