Sono: o agente modificador das doenças neurodegenerativas
Sleep is described as a modifying agent for neurodegenerative diseases and is linked to active aging. A neurologist from the University of Brasília compared protecting sleep to protecting the architecture of the brain. These insights were shared during the XXXII Brazilian Congress of Neurology. The author views nightly sleep as a free opportunity for renewal.
Entenda o que são as doenças neurodegenerativas Chego à quarta e última coluna inspirada nas palestras a que assisti no XXXII Congresso Brasileiro de Neurologia (Neuro 2026). O tema é um dos meus favoritos por estar intrinsecamente ligado ao envelhecimento ativo: o sono. Costumo dizer que temos, todas as noites, a oportunidade de visitar um spa gratuito para nos renovar – e não estou sozinha nessa percepção. “Proteger o sono é proteger a arquitetura do cérebro”, resumiu o neurologista Raimundo Nonato Delgado Rodrigues, professor associado da Universidade de Brasília e uma referência nacional no assunto. O sono funciona como um agente modificador das doenças neurodegenerativas; é quando dormimos que o cérebro repara danos e elimina neurotoxinas daha3131053 para Pixabay O médico recorreu à célebre máxima “Penso, logo existo”, criada pelo filósofo francês René Descartes, para sintetizar a importância do repouso: “Lembro, logo durmo”. E o que isso significa na prática? Na verdade, o sono é um poderoso agente modificador no curso das doenças neurodegenerativas. Durante a vigília, ou seja, quando estamos acordados, a atividade cognitiva tem um custo molecular. O funcionamento sináptico gera microlesões genômicas, como as quebras na fita dupla de DNA, que demandam reparo especializado. O “conserto neuronal” se dá durante o sono, acompanhado por um processo fluido de depuração que bem poderíamos chamar de “lavagem noturna”. Enquanto estamos despertos, o espaço intersticial (entre as células) fica comprimido, acumulando resíduos metabólicos. No sono profundo, o sistema glinfático é ativado e esse espaço se expande, permitindo que o líquido cefalorraquidiano circule com mais facilidade, lavando e drenando as toxinas. Quando ocorre a fragmentação do sono – típica em quadros de insônia ou na Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono – a remoção de agregados neurotóxicos, como beta-amiloide e tau hiperfosforilada, fica prejudicada. O desfecho a longo prazo é a elevação do risco de demências, notadamente a Doença de Alzheimer. Instaura-se, então, um ciclo vicioso: o estresse oxidativo e o acúmulo proteico aceleram o dano neuronal e desorganizam ainda mais os centros reguladores do sono, perpetuando o declínio cognitivo. Na Doença de Parkinson, por exemplo, alterações expressivas no sono surgem comumente anos antes das primeiras manifestações motoras. Resumo da ópera: D-U-R-M-A-M!