Uma Leitura Pedagógica e Ética de O Dia em que Tudo Mudou de Natacha Magalhães
The book O Dia em que Tudo Mudou by Natacha Magalhães includes three stories titled Uma poderosa coroa, Papá para sempre, and Preciosa como tu. These tales address contemporary themes through the voices of their characters. Readers are encouraged to experience scenarios involving revolt, self-esteem, and courage. The work also explores tolerance, solidarity, and respect for different identities. The author suggests that children can easily connect with the characters due to their natural kindness.
Integrando os contos “Uma poderosa coroa”, “Papá para sempre” e “Preciosa como tu”, O Dia em que Tudo Mudou é um livro que dá corpo, voz e expressão a candentes temáticas da contemporaneidade. O leitor(a) que acolher no seu íntimo estas três peças artísticas de Natacha Magalhães sentir-se-á disposto(a) a viajar com as personagens e sentir-se provocado(a) a experimentar cenários de revolta, autoestima, confiança, coragem, tolerância, amor, solidariedade, bondade, respeito às identidades e à diferença... As crianças, seres de natural bondade, como mostram estudos psicopedagógicos e a própria educação literário-infantil, saberão entrar na vida das personagens e avaliar ( com elas, a partir delas ou contra elas) os juízos ético-morais que a trama incita. O Dia em que Tudo Mudou é deveras um livro que, da primeira à última página, revela-se em qual luta contra a indiferença, o abandono dos filhos pelos pais, mas também contra a insegurança e o medo... O leitor infanto-juvenil, e não só, sentir-se-á desafiado a dialogar com Ayana, Kianna, Akim, Anaya e Rahel, reconfigurando a sua vida em outras formas estético-narrativas. A criança e o jovem, outrossim o adulto (pais, educadores, mediadores de leitura), que entrarem em contacto com esse livro, sentir-se-ão chamados(as) a uma viagem ao mais fundo de si mesmos e lançar a pergunta acerca da ontologia do Quem Sou? De onde venho? Como continuo a narrar a minha história? Portanto, é colocada a pergunta acerca da sua identidade pessoal, histórico-narrativa e cultural, condição sine qua no n para o relacionamento interpessoal e, mais amplamente, para ser(-se) capaz de agir (inter)culturalmente e em comunidade de afetos, superando as contingências, assim como as superou a Imani, a Ayo e a Nara, não sozinhas, mas convidando a Carolina e a Nancy, no gesto de uma educação em valores, a esculpirem a partir de si mesmas a verdade ética e narrativa de uma vida a desabrochar como drama-em-gente. O facto da Carolina ser oriunda de um outro país, de ter os olhos verdes e os cabelos da cor da barba de milho não pode ser tomado como o único senso de beleza em relação às colegas de cabelo “afro” e de olhos castanhos. O gesto ético de protesto fez com que as três meninas soltassem os seus cabelos “afro”, elevando-os em toda a sua beleza, orgulho e identidade histórico-cultural, invocando Njinga, Amina e Nandi, poderosas rainhas, princesas e mulheres africanas que as legaram qual bela e estética herança. O desfecho do primeiro conto não poderia ser mais belamente (re)(a)presentado. Aquilo que Friedrich Schiller apelida de estética comportamental (Friedrich Schiller, Sobre a Educação Estética do Ser Humano numa série de Cartas e outros Textos, INCM, Lisboa, 1994) e Eugénio Tavares de beleza moral (Eugénio Tavares, Poesia, Contos, Teatro, Praia, ICLD, 1996), reminiscências platónicas dos dois autores e que, nos três contos de Natacha Magalhães, estão inscritas em entrelinhas. O facto de as duas meninas pedirem desculpas às colegas Imani e Nara pelo seu comportamento pouco saudável, é deveras um ato de beleza moral. É que os contos de Natacha são textos de ação. Não olvidemos que a ética tem como preocupação central a ação humana. São «textos da ação» e «ações do texto» (Cf. Paul Ricoeur, Do Texto a Acção , Rés Editora, Lisboa, S/d). Felizes os “pequenos” leitores e pré-adolescentes que acolherem desde a sua interioridade o dom artístico e ético dessas belíssimas narrativas. É que a literatura, mais do que colocar problemas ético-pedagógicos ou existenciais, os resolve no trabalho das emoções de cada leitor(a) que se entrega de corpo e alma a essa humana aventura do espírito: à medida que a criança interpreta o texto da ação ela é por ele (pelo texto) interpretado. Vive desde a sua interioridade as interrogações suscitadas! Esse novo livro de Natacha Magalhães é referência obrigatória na educação infantojuvenil, no panorama literário caboverdiano contemporâneo e na mediação de leitura em contexto intercultural. «(…) Ás vezes é mais difícil escrever para a infância e juventude, e só quem tem um dom especial é capaz de o fazer» (Carmen Bravo-Villasante, História da Literatura Infantil Universal , Lisboa, Veja Editorial,1977, p.11). Natacha Magalhães é uma escritora que habita (e é habitada por) esse dom de criar histórias no contemporâneo. Acerca das nossas crianças e jovens – e da nossa condição humana, histórica e social – esse livro muito tem a dizer. Elter Carlos, Professor universitário