Cacau abre mercados para o Brasil, mas chocolate pode voltar a ser artigo de luxo devido à crise climática
Brazil currently controls the entire production chain of cocoa and aims for higher quality to enter international markets. The country uses the cabruca system, where fruit is planted under native forest cover. This method helps preserve the forest. A secretary from the Association of Cocoa Growers of Espírito Santo explains that cocoa serves as a way to protect the environment.
Semente de cacau dá origem ao chocolate. Reprodução/Redes sociais Do pé de cacau à barra de chocolate, o Brasil hoje domina toda a cadeia de produção e aposta cada vez mais na qualidade para conquistar mercados internacionais. E o cacau brasileiro carrega um diferencial que vai além do sabor: ele ajuda a preservar a floresta. Quem explica é André Luiz Carvalho Scampini, secretário-executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU). Segundo ele, uma das formas mais tradicionais de cultivo é a cabruca, sistema em que o fruto é plantado sob a cobertura da mata nativa. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 "O cacau é uma forma de preservar o ambiente. Por quê? Porque um sistema mais tradicional de plantio do cacau é a cabruca. É uma palavra indígena. Não tem tradução para outros idiomas e significa roça, cultivo, lavoura. A cabruca, para o cacau, é a gente plantar o cacau na mata nativa, dentro da própria mata." Scampini lembra que a planta é originária da Amazônia e se desenvolve naturalmente à sombra das árvores. Segundo ele, esse modelo de cultivo está diretamente ligado à origem do fruto. Agora no g1 "O cacau é um fruto da Amazônia brasileira. Ele não é sul-americano. Ele surgiu na Amazônia brasileira e, ao longo dos séculos, os indígenas foram levando as sementes pelo continente até chegar ao México. Quando os espanhóis chegaram ao México, conheceram o cacau através dos astecas. Mas a origem do cacau é a Amazônia brasileira. Tanto é que o cacau é primo do cupuaçu", explica. Por ter surgido em ambiente florestal, o cacau se desenvolve melhor sob a proteção de árvores maiores. "Então ele está acostumado a ficar à sombra das grandes árvores. Ele está acostumado com a água", acrescenta. O sistema conhecido como cabruca surgiu muito antes de existir legislação ambiental ou debates sobre sustentabilidade. No sul da Bahia e no Espírito Santo, produtores mantiveram áreas de Mata Atlântica em pé justamente para cultivar o cacau. "Então ele foi plantado dentro da Mata Atlântica. Se hoje na Bahia e no Espírito Santo existe Mata Atlântica, agradeça ao cacau, porque o produtor escolheu. Ele decidiu manter a mata para plantar cacau", afirma Scampini. O Espírito Santo também aposta na valorização da origem do produto. Linhares, no norte do estado, recebeu a primeira indicação geográfica brasileira para amêndoas de cacau. "Nós temos a indicação geográfica, o Cacau Linhares. A indicação geográfica é a mesma coisa que champanhe, bordô, Borgonha ou Serra da Canastra. A nossa é a pioneira." Segundo Scampini, as características naturais da região conferem qualidades únicas ao produto. "Existe o terroir, que é o microclima, a qualidade da terra e a qualidade da água, que tornam a amêndoa de cacau produzida em Linhares diferente. Então ela é mais aromática, mais frutada, tem um sabor mais suave e uma maior concentração de manteiga de cacau." A estratégia agora é levar essa qualidade para novos mercados. "Então, assim, nós temos qualidade. E, se nós temos qualidade, vamos apresentar essa qualidade ao mundo. Vamos levar essa qualidade para a Europa também. Estamos de olho na Ásia, que é um mercado que está crescendo muito. Por isso estamos presentes aqui no Salão do Chocolate, para nos apresentar." Salão do Chocolate em Paris Produtores brasileiros, especialmente do Pará, da Bahia e do Espírito Santo, participam do Salão do Chocolate e da Patisserie, em Paris, entre os dias 28 de outubro e 1º de novembro. Chocolate em barra, em pasta e em calda: durante cinco dias, o público pode degustar diferentes produtos e acompanhar concursos que premiam as melhores receitas de confeitaria. “Nesses eventos, vamos evoluindo a nossa produção de cacau, vai melhorando e conseguimos comercializar de forma mais rápida a nossa amêndoa e nossos subprodutos”, afirma Ivaldo de Santana, expositor do Pará. Mas o setor também reivindica uma remuneração mais justa para os produtores. Em entrevista à RFI, Marco Lessa, coordenador da missão brasileira em Paris, defende uma melhor distribuição dos ganhos ao longo da cadeia produtiva. “A luta maior é para que haja um preço justo, seja para o cacau brasileiro como o africano e do mundo inteiro. O produtor tem que ter uma participação maior que a matéria-prima, o protagonista é o produtor de cacau”, diz. Segundo ele, "não faz sentido que de uma barra de chocolate, só 7% do preço dela é do produtor". “É importante que os consumidores saibam, ao comer, e ao comprar, o impacto disso na vida das pessoas”, completa. Cacau pode virar artigo de luxo O futuro do setor, porém, traz desafios. As mudanças climáticas já afetam regiões produtoras e podem transformar novamente o chocolate em um produto de luxo. É o que alerta Elis Joinville, da Cacau Brasil. "O chocolate, historicamente, era um produto de luxo. Até os anos 40 e 50. Com o passar do tempo, outras maneiras de fazer chocolate foram surgindo para popularizar o produto." Mas esse cenário pode mudar. "Com a mudança climática e o aumento das temperaturas, as culturas de cacau podem ser realmente afetadas. Na verdade, já estão sendo afetadas. E o preço já está subindo." Segundo ela, algumas variedades cultivadas há mais de dois séculos estão ameaçadas. "Há algumas culturas de cacau que existem há mais de 200 anos e podem desaparecer por causa desse aumento das temperaturas", alerta. A consequência pode ser sentida diretamente pelo consumidor. "Isso pode fazer com que, um dia, o chocolate volte a ser um produto de luxo", afirma Joinville. Chocolate brasileiro feito com 'amor' E o que os franceses acharam do chocolate brasileiro? A reportagem conversou com visitantes do salão. "É excelente. Gostei dos diferentes chocolates, especialmente o de 70%. É suave, encorpado, com notas que remetem à floresta. Não há amargor. É extremamente suave na boca. Dá para sentir todo o amor dedicado a essa produção, desde o início até a criação do chocolate", diz Nathalie, uma visitante ouvida pela RFI. Ela também destacou a importância da sustentabilidade. "É claro que os chocolates feitos por franceses são excelentes, mas eles não podem fazer milagres se a produção do chocolate em si não for da melhor qualidade. E, para isso, é preciso ética. É necessário que a produção ocorra em condições ambientalmente aceitáveis", acrescenta. Para ela, a agrofloresta representa o caminho mais promissor para o futuro da produção. "Hoje em dia, a agrofloresta é a solução ideal", aponta. Do coração da Amazônia e da Mata Atlântica para as vitrines e confeitarias da Europa, o chocolate brasileiro aposta na qualidade, na preservação ambiental e na origem para conquistar consumidores em todo o mundo.