Equilíbrios precisam-se para o país se manter livre, estável e sustentável
Some people are questioning the current process for selecting candidates. There are debates over whether a president seeking a renewed mandate should have their performance evaluated. Concerns have also been raised regarding how public media outlets conduct their debates. Critics point to the way journalists moderate language and choose themes. In some instances, questions have shifted away from presidential powers toward general government policies and parliament matters.
Há quem questione o processo de selecção dos candidatos. Há outros que consideram que não se devia avaliar a prestação, no exercício do cargo de presidente, do candidato que procura renovação do mandato. Há também quem se indague sobre a forma como o debate nos órgãos públicos de comunicação social tem sido conduzido. Em particular, ouvem-se críticas sobre a moderação feita pelos jornalistas da linguagem utilizada pelos participantes e a escolha dos temas. Em alguns casos, as questões tendem a ultrapassar o âmbito das competências do presidente da república e a extravasar para as políticas de governação do país e para a esfera do parlamento em matéria de revisão da Constituição. De entre as eleições presidenciais realizadas com a participação de um candidato incumbente a actual disputa distingue-se de todas as outras três verificadas em 1996, 2006, 2016. Da primeira vez o candidato não teve concorrente. Da segunda não houve debate. Na terceira vez talvez por não ter um adversário com percurso político e a beneficiar do apoio explícito e patrocínio de um dos grandes partidos o debate foi curto (uma hora) e modesto no tom e na temática. Desta vez são seis os candidatos, dois de entre eles têm suporte de sectores dos dois maiores partidos e os outros dois já tinham participado na corrida presidencial de 2021 com projectos próprios que podem contrapor ao que então venceu e que agora quer renovar o mandato. Com essa pluralidade de projectos e de propósitos o mais natural é que a campanha eleitoral de 2026 seja mais renhida e aparente ser mais agressiva do que das outras vezes. O que não se pode esperar é que, debatendo sobre o futuro da presidência da república, se queira inibir os outros candidatos de avaliar o mandato em vias de terminar, marcado em vários momentos por tensões institucionais, por controvérsias e activismo com tonalidades fracturantes, enquanto se garante ao incumbente a possibilidade de justificar a sua prestação. Como em todas as eleições democráticas nem sempre os candidatos podem ser os “melhores”, que, aliás, só existem ou se autoproclamam nos processos revolucionários e constituem a vanguarda que promete “ os amanhãs que cantam ”. Nas democracias garante-se a todos o direito de participação na vida pública e de acesso aos cargos electivos. Mas dá-se a estruturas de mediação política, os partidos livremente criados pelos cidadãos livres, o poder de apresentar candidatos para as eleições legislativas e para os órgãos eleitos do poder local. Sendo o presidente da república um cargo suprapartidário os candidatos são propostos por grupos de cidadãos que funcionam como estruturas de mediação. De facto, se é verdade que qualquer cidadão caboverdiano, cumprindo todos os requisitos exigidos, pode ambicionar ser presidente da república também o é que para se apresentar como candidato tem que assegurar a concordância de um mínimo de 1000 eleitores, numa população de 529.500, provenientes de pelo menos 10 concelhos do país. Não é um feito despiciendo conseguir o suporte dessas pessoas considerando que, por exemplo, comparativamente com Portugal, que tem presidente da república eleito de forma similar, a exigência é de um mínimo de 7500 eleitores. Ora isso corresponde a 0,068% dos eleitores enquanto em Cabo Verde a percentagem é de 0,234%, ou seja, 3,4 vezes maior, algo que revela que, mesmo pelos standards internacionais, não é fácil ser candidato. Há que fazer um apelo especial a um número significativo de pessoas para se ter uma proposta viável. Para evitar que haja proliferação de candidaturas pouco avisadas também se limitou na lei eleitoral a subvenção da campanha pelo Estado aos candidatos que conseguem obter pelo menos 10% dos votos expressos. Este factor dissuasor, entretanto, foi desativado pelo Tribunal Constitucional (TC) em vários acórdãos a começar pelo primeiro, o Acórdão nº 7/2018 que considerou a barreira de 10% exagerada e que esvaziava , “o direito de aceder em condições de igualdade a cargos eletivos e o princípio da igualdade de oportunidades ”. Passados mais de seis anos não se viu acção do parlamento para ultrapassar o problema com o estabelecimento de uma cláusula-barreira menos pesada, nem de outras entidades públicas competentes para pedir a declaração de inconstitucionalidade da norma junto do TC. A percepção pública de uma certa banalização das candidaturas ao cargo de PR poderá estar a ser induzida pelo facto de, na realidade, se ter desactivado esse factor financeiro. O que porém desperta mais atenção nestas eleições presidenciais é o facto de pela primeira vez as candidaturas existentes poderem constituir um real desafio à renovação do mandato do candidato incumbente. O actual PR ganhou as eleições em 2021 logo na primeira volta. Um resultado no dia 15 de Novembro que o leve a uma segunda volta poderá ser visto como um sinal de fraqueza, marcando o seu segundo mandato em caso de vitória. E é assim porque sempre se poderá especular que acabou por ganhar devido ao apoio do primeiro-ministro e do seu partido. Em caso de se repetirem as tensões com o Primeiro-ministro, do tipo das verificadas nos três meses a seguir às eleições, algo bastante provável considerando o historial da postura do PM em relação aos outros órgãos de soberania, como se tem visto no parlamento, não é líquido que estará na melhor posição para garantir a separação de poderes e o regular funcionamento das instituições, se forem desafiadas. Incertezas de vária ordem dificultam ter uma visão do futuro próximo. A situação torna-se mais complicada com os imprevistos que resultam de posturas públicas de governantes que tendem a fugir ao expectável institucional e que passam uma mensagem permanente de que as normas e os procedimentos democráticos são seguidos se se for conveniente. O ministro de finanças que também é o primeiro-ministro não vai à comissão especializada de finanças e do orçamento para audição sobre a proposta de lei do Orçamento do Estado. O presidente da Assembleia Nacional, que faz a representação externa do parlamento nas relações com outros órgãos de soberania, omite-se numa questão essencial que são os procedimentos a seguir para discussão e aprovação na plenária do OE nos fins de Novembro e também no que respeita à responsabilização do governo perante o parlamento. Claramente, o que está em jogo nestas eleições presidenciais e a possibilidade de se estabelecer um equilíbrio no sistema político que permita o funcionamento continuado da democracia e que mantenha a capacidade do sistema político de corrigir erros, de encontrar soluções inovadoras e de forjar visão e políticas alternativas no tempo próprio. Indispensável também para esse equilíbrio é a existência de uma oposição unida, forte e eficaz focada em manter o país livre, estável e confiante no futuro. Humberto Cardoso Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1301 de 04 de Novembro de 2026.