Presidenciais 2026 - O que esperam os cabo-verdianos do próximo Presidente da República?

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Na cidade da Praia, o sociólogo Elisio Semedo, diz que uma das questões que merece reflexão prende-se com a facilidade com que, na sua perspectiva, se pode chegar a uma candidatura presidencial, tendo em conta os requisitos previstos na Constituição da República. “A nossa Constituição da República é tão liberal que quase qualquer cidadão, qualquer prisioneiro, pode candidatar-se. Não exige habilitações literárias, nem sequer posições éticas e morais. Basta que queira candidatar-se e consiga um determinado número de assinaturas. É por isso que temos vários candidatos”, afirma. Na leitura de Elisio Semedo, a existência de seis candidaturas não significa, necessariamente, que todos os concorrentes reúnam o perfil adequado para exercer a Presidência da República. O sociólogo considera que, entre os candidatos admitidos à corrida presidencial, apenas três preenchem os requisitos mínimos que entende serem necessários para o exercício da função. Quanto ao perfil que considera essencial para o próximo PR, Elisio Semedo entende que a capacidade de interpretar a conjuntura internacional e antecipar possíveis consequências para o país deve estar entre as principais qualidades do futuro Chefe de Estado. “O que eu quero é um Presidente que saiba fazer a leitura do fenómeno internacional, que saiba antecipar, para não sermos apanhados de surpresa”, sublinha. O sociólogo considera ainda que o PR deve assumir o papel de garante do equilíbrio entre os diferentes interesses, sobretudo quando estão em causa decisões que, embora legalmente possíveis, podem suscitar conflitos de interesse. Por sua vez, Raphael Ferreira, presidente da associação juvenil B Bright, espera que o próximo Presidente da República seja mais próximo da juventude e esteja disponível para ouvir as suas preocupações. “Esperamos que seja um Presidente que saiba ouvir e que esteja junto dos jovens. Os maiores desafios que temos a nível nacional, muitos deles têm a ver com a juventude. Enquanto organização juvenil, pedimos que o próximo PR seja mais próximo dos jovens e saiba ouvi-los”, afirma. Raphael Ferreira defende igualmente uma Presidência mais presente nas comunidades, ao invés de uma instituição que aguarda pela visita de organizações e cidadãos no Palácio Presidencial. O entrevistado considera que, embora o poder executivo pertença ao Governo, o PR dispõe de instrumentos de influência para levar as preocupações da população aos órgãos de decisão e intervir na defesa dos interesses nacionais. “Pedimos que o próximo Presidente vá às comunidades, esteja mais próximo das pessoas, ouça-as e recolha os seus subsídios, para ser um porta-voz da população”, sustenta. Sobre a participação juvenil nas eleições, o presidente da B Bright reconhece que algumas declarações e comportamentos dos candidatos durante debates e entrevistas têm provocado reacções nas redes sociais e nos bairros. Na sua perspectiva, a postura de quem concorre à Presidência deve ser coerente com a responsabilidade do cargo, uma vez que determinadas atitudes podem contribuir para o afastamento dos jovens da política. “Muitos jovens acham que o PR não tem muita influência, mas é o maior guardião da Constituição e tem uma magistratura de influência. É essa influência que pedimos que o próximo Presidente tenha, para colocar a juventude na sua agenda nacional”, apelou. Assomada Em Assomada, Hélder Tavares também defende uma Presidência da República mais interventiva na defesa dos interesses da população, sobretudo na abordagem dos problemas que afectam o quotidiano dos cabo-verdianos. Embora reconheça que o poder executivo pertence ao Governo, considera que o PR pode funcionar como porta-voz das preocupações dos cidadãos, levando-as aos órgãos de decisão e promovendo o debate em torno de possíveis soluções. “Espero que o próximo PR seja mais consciente e activo nos problemas reais das pessoas. O Presidente tem uma voz pública e um enorme peso, por isso deve usar essa influência para colocar no centro do debate a criação de novas oportunidades para os jovens, o acesso à habitação digna e a melhoria dos serviços públicos”, argumenta. Hélder Tavares entende ainda que a defesa dos interesses dos cabo-verdianos exige capacidade de diálogo com todas as forças políticas, independentemente de estarem no Governo ou na oposição. “O PR tem de ter capacidade para dialogar com o Governo e com a oposição, sem partidarizar a sua função. A Presidência não deve estar ao serviço de um partido, mas do povo. É extremamente importante saber conciliar, ouvir e falar com todos os partidos, para que os interesses dos cidadãos sejam o ponto central”, defende. Já Evelise Furtado, estudante de Relações Internacionais e Diplomacia da Universidade de Cabo Verde, considera que o próximo PR deve assumir-se como garante da estabilidade democrática e do equilíbrio entre os órgãos de soberania. Na sua perspectiva, cabe ao Chefe de Estado preservar a credibilidade internacional de Cabo Verde enquanto democracia consolidada, sem perder de vista os problemas internos, sobretudo os que afectam os jovens, como o desemprego, a emigração e o custo de vida. A estudante defende igualmente uma Presidência com maior atenção à diáspora cabo-verdiana e aos desafios da política externa. Entende que, apesar da dimensão territorial reduzida do país, o Chefe do Estado deve contribuir para reforçar a presença de Cabo Verde no plano internacional e aprofundar as parcerias com organizações e espaços de cooperação como a União Europeia, a CEDEAO e a CPLP, bem como com os países de acolhimento das comunidades emigradas. Quanto à intervenção do Chefe de Estado na vida interna do país, Evelise Furtado considera que esta deve ir além da representação protocolar. “Ser Presidente não significa apenas representar o país em cerimónias oficiais. Significa também saber ouvir os cidadãos, estar atento aos problemas que afectam a sociedade e utilizar a influência do cargo para chamar a atenção para essas questões, sempre com respeito pelas competências do Governo e dos restantes órgãos de soberania”, sustenta. Sobre as características que considera fundamentais para o próximo Presidente, a estudante coloca a defesa e o cumprimento da Constituição no centro das suas expectativas, por entender que este documento constitui a base da democracia e a garantia dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. “Mais do que dividir, deve procurar unir os cabo-verdianos e trabalhar para que as instituições estejam sempre ao serviço do interesse nacional. Independentemente de quem vença, o mais importante é que a democracia cabo-verdiana saia reforçada, com uma participação activa dos cidadãos”, salienta. São Vicente Em São Vicente, Alexis Neves defende uma Presidência de proximidade, com capacidade para ouvir as preocupações da população e acompanhar os principais desafios do país. “Espero que o próximo PR seja uma figura de proximidade com os cidadãos, que saiba ouvir as preocupações da população e que esteja atento aos principais problemas que afectam o nosso país. Gostaria de ver um Presidente mais próximo dos jovens, que valorize a formação, a educação, o desporto e a criação de oportunidades para que possam construir o seu futuro no país, sem sentirem que a emigração é a única alternativa para conseguirem melhores condições de vida”, opina. Alexis Neves entende também que o Chefe do Estado deve assumir uma posição de equilíbrio e abertura ao diálogo com os diferentes sectores da sociedade, independentemente das suas opções políticas. “Não espero um Presidente que faça promessas que ultrapassem as suas competências, mas alguém que saiba utilizar a influência e a responsabilidade do seu cargo para chamar a atenção para os problemas nacionais e exigir respostas das instituições competentes”, explana. Acompanhando o debate eleitoral, o entrevistado considera positiva a existência de várias candidaturas, por permitir aos eleitores conhecer diferentes perspectivas sobre o futuro do país. Contudo, entende que os concorrentes devem ir além das críticas à situação actual e apresentar propostas concretas e demonstrar conhecimento sobre as atribuições constitucionais da Presidência da República. “Não basta apresentar críticas à situação actual ou apontar os problemas de Cabo Verde. É necessário explicar de que forma um Presidente, dentro das suas competências constitucionais, poderá contribuir para encontrar soluções”, frisa. A coerência dos discursos, o respeito pelas instituições e a responsabilidade das posições assumidas são, igualmente, critérios que Alexis Neves considera importantes na avaliação dos candidatos. O entrevistado entende ainda que a admissão das candidaturas deve obedecer a critérios rigorosos, transparentes e iguais para todos e lembra a importância do cargo exige o cumprimento dos requisitos previstos na Constituição e na legislação eleitoral. A este propósito, refere o processo das presidenciais de 2026, em que a candidatura de Loisito Tavares de Sousa foi inicialmente rejeitada, mas acabou por ser admitida na sequência de um recurso, depois de o Tribunal Constitucional ter identificado uma falha na informação que sustentou a decisão inicial. Para Alexis Neves, situações desta natureza reforçam a necessidade de responsabilidade por parte das entidades encarregues da análise dos processos. “Não basta exigir que os candidatos cumpram todas as regras; é igualmente importante garantir que as entidades responsáveis pela avaliação actuem com profissionalismo, imparcialidade e transparência. O rigor deve existir tanto na apresentação das candidaturas como na sua avaliação”, avalia. “Para mim, o mais importante é termos um Presidente que esteja acima dos interesses partidários e que coloque os interesses de Cabo Verde e dos cabo-verdianos em primeiro lugar”, considera. Maio Na ilha do Maio, Keila Ribeiro também defende uma Presidência da República mais próxima dos cidadãos e com uma intervenção activa na defesa dos interesses nacionais. Para a entrevistada, o papel do Chefe de Estado não deve limitar-se à representação de Cabo Verde no estrangeiro, devendo haver uma atenção particular às necessidades da população dentro do próprio país. “Não precisamos de um PR que nos represente apenas fora do país. Precisamos de um Presidente que nos represente dentro do nosso país, acima de tudo. Também deve ser mais activo na defesa dos interesses dos cabo-verdianos. Precisamos muito que seja um Presidente activo e não apenas para se dizer que temos um Presidente da República com determinado nome”, diz. Keila Ribeiro mostra, por outro lado, alguma insatisfação com o actual quadro de candidaturas presidenciais por considerar que deveria haver maior rigor na selecção dos concorrentes ao mais alto cargo da Nação. Do seu ponto de vista, a multiplicidade de candidaturas nem sempre corresponde às expectativas dos eleitores e acaba por alimentar o desgaste e a desconfiança em relação à classe política. Esse sentimento, segundo relata, também se faz sentir na sua ilha, onde encontra cidadãos pouco motivados para participar nas eleições e que admitem não exercer o direito de voto por não acreditarem que uma mudança de Presidente possa traduzir-se em diferenças concretas. “Acho que os candidatos à Presidência da República estão cada vez pior. Há alguns que deixam muito a desejar. Devia haver menos candidatos e mais rigor na escolha de quem concorre à Presidência. O que sinto aqui no Maio é que as pessoas estão um pouco cansadas e sem muita vontade de ir votar. Há muitas que já dizem que não vão votar porque é tudo a mesma coisa, tudo igual. Não têm muita confiança nos candidatos, aliás, nos políticos”, lamenta. Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1301 de 04 de Novembro de 2026.

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