Jovens de Cabo Verde são mão-de-obra especializada em Freixo de Espada à Cinta
Os primeiros 20 alunos cabo-verdianos chegaram há quatro anos a Freixo de Espada à Cinta, no distrito de Bragança, e nos anos seguintes mais 21 estudantes deste país africano de língua oficial portuguesa vieram com sonhos de futuro e saudades da sua terra natal, mas com vontade, para já de ficar. Quinze deles estão já estão no mercado de trabalho local, como em Intuições Particulares de Segurança Social (IPSS), hotéis, restaurantes ou serviços após a conclusão de cursos profissionais nas áreas da cozinha, pastelaria, turismo, viticultura ou geriatria. Aleida Lopes, uma jovem cabo-verdiana de 21 anos, contou à agência Lusa e que chegou a Freixo de espada à Cinta com 17 anos, com alguma dificuldade de integração, por falta de conhecimento de pessoas e da vila, a que se juntaram as saudades do seu país, por estar num ambiente diferente, mas tudo mudou em quatro anos. As dificuldades de integração não demoveram a jovem a aceitar a proposta de trabalhar num restaurante de uma unidade hoteleira desta vila, logo após a conclusão do seu estágio. “Para já penso em ficar por aqui. Tem sido uma boa experiência, estou a aprender muito. Conseguimos ultrapassar os obstáculos iniciais e agora seguimos em frente, sem nunca desistir, porque foi para isso que vim para cá. Quero voltar a Cabo Verde, mas de férias, porque o meu trabalho está aqui”, sublinhou. Belany da Veiga, de 23 anos, disse que concluiu o curso em cozinha e pastelaria e está a trabalhar num restaurante de Freixo de Espada à Cinta e com vontade de aprender, porque está num espaço onde é bem tratada e já com a liberdade para as suas criações, no âmbito da sua formação. As dificuldades de adaptação foram iguais às dos seus colegas. “Aqui faço muitas coisas, com destaque para as sobremesas, vou aprendendo muito sobre gastronomia. Para já quero ficar aqui e o futuro logo se vê. Estou-me a sentir em casa porque sou bem tratada. Este desafio e nestas condições é bom para trabalhar”, indicou. Da restauração para o setor das IPSS, a Lusa falou com Marleny Tavares, que desempenha funções na Santa Casa da Misericórdia de Freixo de Espada à Cinta (SCMFE), na área da geriatria, que disse estar a trabalhar num ambiente agradável e o regresso a Cabo Verde é adiado apesar de ter deixado muito para trás, como os pais, amigos e a cultura do seu país. “Estou a trabalhar com pessoas idosas, o que para mim é uma experiência nova, que requer muitos cuidados. No início houve receios, fui acompanhada e agora está tudo na normalidade. Tenho um posto de trabalho e vou continuar. O meu memento mais marcante foi o final do meu curso. Quanto ao futuro ninguém sabe, mas para já é para ficar aqui”, explicou a jovem cabo-verdiana. Para quem acolheu estes jovens profissionais nas suas empresas ou intuições, como é caso de José Araújo, empresário da restauração, esta mão-de-obra especializada chegou em boa hora, porque é difícil de encontrar no mercado de trabalho. “Ter mão-de-obra especializada é uma mais-valia, porque é difícil de encontrar. Marleny fez o seu estágio profissional no nosso restaurante e depois acabámos por contratá-la, já que é muito profissional naquilo que faz. Quando as pessoas são boas profissionalmente, temos de as aproveitar”, disse. Já Susana Santos, diretora técnica da SCMFE, considera que esta mão-de-obra vem refrescar o mercado de trabalho na vila porque são jovens e têm muita vontade de trabalhar. “O facto de estes jovens terem formação na nossa área e serem qualificados para as funções que desempenham é uma mais-valia. No curso de geriatria que agora está a terminar, os 12 alunos cabo-verdianos estão aqui a estagiar, repartidos por quatro edifícios, grande parte deles querem ficar em Freixo de Espada à Cinta, havendo um outro que tem perspetivas de continuar os seus estudos”, explicou a responsável. Segundo o presidente da Câmara de Freixo de Espada à Cinta, Nuno Ferreira, estes cursos deram início à valorização de setores em que havia menos oferta de emprego para complementar as falhas do mercado de trabalho na região. “Com a fixação destes jovens está-se a contribuir para a dinamização da economia local e acrescentar à população residente. Tivemos sempre o cuidado de promover os estágios curriculares no nosso concelho e vizinhos. Quem ficou trabalhar é porque tem formação adequada”, vincou o autarca. Segundo Nuno Ferreira, há acordos estabelecidos com municípios cabo-verdianos das ilhas do Fogo, Santiago e São Nicolau, para que a cada ano letivo possam ser disponibilizadas 10 vagas de cada vez para estes alunos lusófonos. “Estes cursos e os seus complementos são tidos como um exemplo a nível nacional”, disse. Os primeiros cursos a serem lecionados foram de cozinha e pastelaria, turismo, vitivinícola e mais recentemente geriatria e restaurante e bar, que engloba estudantes portugueses e cabo-verdianos. Estes cursos de ensino secundário profissional resultam de um protocolo tripartido entre o município de Freixo de Espada à Cinta, Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares.