Milagreiros de cemitério: quem são os mortos que atraem devotos no interior de SP

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In Campinas, some graves in the Saudade Cemetery attract devotees seeking spiritual help. These graves belong to people known as cemetery miracle workers, who often died tragic deaths. Researcher Thiago de Souza identifies about 25 miracle workers in Campinas and 30 in the capital of Sao Paulo. There is no specific rule for someone to gain this title. Devotees often leave plaques on the tombs stating a grace was achieved.

Finados: o que são os milagreiros de cemitério que atraem devotos no interior de SP Ao caminhar pelo Cemitério da Saudade, em Campinas (SP), é comum encontrar túmulos repletos de placas com a frase "Por uma graça alcançada". Essas sepulturas pertencem aos chamados "milagreiros de cemitério", pessoas comuns que, após mortes muitas vezes trágicas, passaram a atrair devotos em busca de ajuda espiritual. O pesquisador cemiterial Thiago de Souza, idealizador do projeto "O que te assombra", afirma que há cerca de 25 milagreiros identificados em Campinas e outros 30 na capital paulista. Segundo o especialista, não existe uma regra para que alguém ganhe esse título. A devoção surge de forma espontânea e segue um processo próprio criado pelos visitantes. "Se não existir devoto, não existe milagreiro. A pessoa simplesmente acredita, ela vai lá, reza, pede ajuda, como se estivesse de fato pedindo ajuda a um santo submetido aos processos e ao crivo da Igreja. Se ele recebe ajuda, muito grato, vai lá e coloca uma plaquinha, acende uma vela, conta para as pessoas", explica Souza. O pesquisador ressalta que o fenômeno se assemelha à tradição dos primeiros mártires cristãos, mas difere da santidade oficial, já que a Igreja Católica não reconhece formalmente essas figuras. "É muito parecido com o processo devocional dos primeiros mártires, que depois vieram a ser chamados de santos. Tanto que eu nunca uso a expressão 'santo popular', porque santo decorre imediatamente de uma outorga da Igreja", diz. Mesmo sem o aval religioso, a devoção se mantém viva pela identificação da comunidade com as histórias dos mortos. Ritos e sincretismo Túmulo de Toninho, milagreiro do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 Os túmulos dos milagreiros fogem do padrão visual dos cemitérios. Além de flores, recebem placas de agradecimento e objetos deixados por devotos que acreditam ter alcançado uma graça. Esses itens são chamados de ex-votos. Mais do que um agradecimento, o ex-voto é um testemunho público. Ao deixar o objeto, o devoto compartilha sua experiência, o que ajuda a espalhar a fama do milagreiro e a atrair novos visitantes. “Por exemplo, o cara está com um problema de saúde muito grave na cabeça. Se ele resolve o problema, ele vai lá e coloca um ex-voto em formato de cabeça. [...] O que é mais bonito desse fenômeno é que não tem regra”, relata Thiago. Religiões de matriz africana, como umbanda e quimbanda, costumam associar algumas dessas figuras a entidades espirituais. As milagreiras Maria Jandira e "A Desconhecida", por exemplo, são frequentemente interpretadas como pomba-giras. Já os túmulos infantis costumam ser relacionados aos erês. Devoção diária Túmulo de Toninho, milagreiro do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 A devota Adriana Camilo, de 45 anos, visita os túmulos dos milagreiros desde a infância. Levada pelas tias, ela começou a orar no local antes mesmo de entender o significado da prática. "Eu, minha tia Francisca e minha tia Dinha costumávamos ir para o cemitério frequentar o túmulo do escravo Toninho e da prostituta Jandira, em quem eu também sempre tive muita fé. Na verdade, eu, quando criança, nem sabia o que significava isso; eu só sabia que eu gostava deles", lembra. Hoje, Adriana vai ao local esporadicamente. Como espírita, ela considera o cemitério um campo sagrado e realiza rituais de proteção nas visitas. "Na minha religião, a gente entende que ali estão espíritos. Então sempre tomamos um banho de defesa quando chegamos em casa", explica. Devota de Toninho, ela diz que a figura histórica representa a perseverança. Para Adriana, a quantidade de placas no túmulo prova a força dessa fé. "Lá não tem mais espaço para placas de graças alcançadas. Então, ele foi reconhecido como santo não é à toa", afirma. Adriana enxerga a prática como uma manifestação legítima da religiosidade popular, baseada na empatia por pessoas que sofreram em vida. "Quando isso é levado pelo lado positivo, para pedir algo bom e benéfico para a vida, eu não vejo mal nenhum. E tenho certeza de que, de alguma forma, o Toninho me ajudou", diz. Patrimônio imaterial e espiritualidade Flores deixadas no túmulo de Maria Jandira, milagreira do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 Para o pesquisador Thiago de Souza, o fenômeno vai além dos pedidos de graças e revela traços importantes da vida em comunidade. “Eu gosto de um outro aspecto muito interessante, porque ele acaba evidenciando algo que a gente tem em tremenda escassez hoje em dia, que é a empatia comunitária. [...] Fazia com que as pessoas fossem até o cemitério rezar pela alma de quem partiu, rezar pela tristeza", conta. No passado, a população se reunia diante de mortes trágicas ou violentas, como a de Maria Jandira, dos "Três Anjinhos" e da "Desconhecida". Em vez de esquecer as vítimas, a comunidade transformava a dor em devoção. Para Souza, os milagreiros devem ser vistos como patrimônio. Cada devoto que volta ao túmulo, cada mãe que deixa uma chupeta e cada pessoa que reza por quem nem conheceu ajuda a manter viva a memória afetiva de Campinas. “A gente vai no cemitério, que é um lugar de tristeza, mas que também pode ser um lugar de conversão, que se apropria dessas mortes [...] e transforma esse acontecimento em esperança e fé. Eu acho isso muito bonito", finaliza. 👇 Conheça os principais milagreiros do Cemitério da Saudade: Milagreiros de Campinas no Cémiterio da Saudade Maria Jandira, a 'especialista nos afetos': nascida em 1911, trabalhou como prostituta e, segundo relatos, tirou a própria vida aos 23 anos após uma desilusão amorosa. Hoje, é procurada por pessoas que buscam ajuda para questões do coração. Desde os anos 1950, seu túmulo recebe flores e placas. Em algumas vertentes religiosas, é associada à figura da pomba-gira. Toninho Escravo, o 'clínico geral': a lenda conta que, em 1888, o trabalhador escravizado foi obrigado a ir para a lavoura na Sexta-feira Santa. O boi que ele conduzia, no entanto, teria se recusado a andar e "falado" que aquele era um dia santo. Toninho morreu em 1904 e, por atender a pedidos variados, virou o "clínico geral" do cemitério. Foi enterrado ao lado do antigo senhor, em uma área antes destinada apenas a brancos. Os Três Anjinhos, protetores das crianças: segundo a tradição, três crianças morreram em um incêndio. A identidade delas, no entanto, segue desconhecida. O túmulo é visitado por quem busca proteção e saúde para os filhos. Como agradecimento, pais e avós costumam deixar chupetas, mamadeiras e brinquedos na sepultura. 'A Desconhecida', a tragédia revertida em fé: uma jovem foi encontrada morta após um crime violento na região de Joaquim Egídio. Com o corpo queimado, ela nunca foi identificada. A comoção transformou a vítima em símbolo de fé, e hoje seu túmulo recebe pedidos ligados a relacionamentos. Assim como Maria Jandira, também é associada à pomba-gira por algumas religiões. João Paulo, o recordista de graças: integrante de uma congregação católica, morreu aos 30 anos. Sua devoção não envolve lendas trágicas: amigos tiveram sonhos com ele e, por orientação religiosa, levaram uma imagem de Nossa Senhora ao túmulo. É considerado o recordista do cemitério, com mais de 2,5 mil graças atribuídas a ele em apenas um ano. Dr. Vieira Bueno, o político: ex-prefeito de Campinas, Manuel de Assis Vieira Bueno é uma figura histórica. Segundo a tradição, seu túmulo também virou local de oração, mostrando que a devoção popular abraça desde pessoas anônimas até figuras que ocuparam espaços de poder. *Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro e Gabriella Ramos. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

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